Delírios e alucinações são sintomas relacionados à esquizofrenia, doença que afeta a forma como uma pessoa organiza os pensamentos, se comunica e expressa as emoções. Além dessa associação mais comum, a mudança na percepção da realidade também pode acontecer no transtorno bipolar, que gera mudanças extremas de humor entre depressão e mania.
Neste mês, um estudo publicado na revista científica Frontiers in Psychiatry revelou que as duas doenças compartilham mais semelhanças do que se sabia até então.
A pesquisa, realizada na Universidade Médica de Anhui, na China, utilizou exames de ressonância magnética funcional para comparar a atividade cerebral de pacientes com idades entre 18 e 50 anos. Dentre o grupo estudado, 89 eram pessoas com esquizofrenia, 57 com transtorno bipolar tipo I e 45 indivíduos saudáveis.
Em vez de procurar simplesmente quais áreas do cérebro estavam mais ou menos ativas, eles observaram como diferentes regiões coordenavam sua atividade enquanto os participantes estavam em repouso.
O principal resultado foi que pacientes com as duas doenças apresentaram uma menor sincronização entre regiões cerebrais distantes em comparação com o grupo de controle. Em outras palavras, diferentes partes do cérebro pareciam estar menos coordenadas entre si. Também foram notadas alterações de comunicação em redes envolvidas em funções como memória, emoção, atenção, visão e processamento sensorial.
As alterações foram mais amplas no grupo com esquizofrenia, que também apresentou mudanças em regiões relacionadas ao processamento de sons e linguagem, e ao reconhecimento de rostos.
De acordo com Leonardo Palmeira, psiquiatra e pesquisador do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), em entrevista ao GLOBO, o estudo traz dados de maior valor científico por conseguir associar análises de dimensões clínicas, anatômicas e funcionais.
— É como se os pesquisadores pegassem um mapa de estradas congestionadas e conseguissem desenhar quais cidades (áreas cerebrais) estão muito ou pouco conectadas entre si, dividindo-as em “módulos” (como o módulo da atenção, das emoções, etc) — explica.
A semelhança biológica encontrada no estudo se alinha com descobertas genéticas anteriores que apontavam que a esquizofrenia e o transtorno bipolar compartilham cerca de 70% de suas influências genéticas. Os achados reforçam a visão científica moderna de que as patologias psiquiátricas não ocupam “gavetas biológicas” totalmente separadas, mas envolvem a forma como diferentes áreas do cérebro se conectam.
Palmeira destaca que o estudo não indica que exames de imagem sejam usados em diagnósticos de consultório, mas que os resultados podem contribuir para a compreensão das doenças.
— São achados valiosos para que a ciência continue avançando degrau por degrau. Eles nos ajudam a entender melhor a biologia por trás do sofrimento dos pacientes para que, quem sabe no futuro, possamos desenvolver tratamentos mais direcionados. Contudo, eu faço um alerta fundamental: não precisamos esperar o futuro para oferecer qualidade de vida — diz.
O médico destaca que com os recursos disponíveis atualmente, tanto em medicamentos quanto no suporte psicossocial, que inclui psicoterapia, oficinas ocupacionais, arte, apoio à inserção no trabalho e terapia familiar, é possível alcançar excelentes resultados práticos.
— Ninguém deve ficar paralisado aguardando uma “descoberta milagrosa” da ciência, pois temos muito a fazer no presente com os tratamentos que já funcionam e salvam vidas todos os dias — destaca.
Fonte: O Globo (por Camila Duarte)



0 comentários