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Depoimento de Vitória: “A arte é como consigo encontrar clareza onde tudo é escuridão!”

Editor do Portal 28 de novembro de 2017 Blog, Depoimentos 30 comments
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Os desenhos que ilustram este comovente depoimento são de Vitória.

Confesso que passei longos dias pensando no que escrever sobre mim e qual seria o começo de uma história tão confusa, como esta.

Me chamo Vitória D’Carlo e o meu forte não são as palavras, são os traços, os sombreamentos, a transformação do que só eu vejo e/ou sinto no que todo mundo pode ver e entender se houver esforço.

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Eu tenho 20 anos e tenho a total consciência de que sempre tive algo diferente. Tudo sempre pareceu me afetar mais do que deveria, sempre fui muito mais sensível, o que fez meus pais buscarem psicólogos e psiquiatras quando eu tinha ainda 12 anos. Durante a adolescência recebi diversos diagnósticos (ansiedade, depressão, boderline, TPT, bipolaridade), até chegar á idade adulta e receber o diagnóstico conclusivo: Esquizofrenia Paranóide.

Durante a escola (eu devia ter uns 14 anos), lembro e sou lembrada pelos poucos amigos que me restaram dessa época, eu gostava do isolamento, eu não confiava em muitas pessoas e as que confiava jamais me entenderiam. Eu tinha certeza que toda escola estava contra mim, e as pessoas não contribuíam, espalhavam boatos e me faziam sentir pior.

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Para tentar me desligar do que acontecia ao meu redor, dos boatos, dos olhares, da exclusão e das vozes que ouvia às vezes e não podia explicar, eu me voltava para o caderno, e, ainda sem muita técnica, eu passava minhas manhãs e tardes desenhando, e tais desenhos me davam alívio, eu tinha algo para me ocupar, eu não precisava me doar ao mal que pairava sobre mim naquela escola e, mesmo assim, no ano seguinte deixei de frequentá-la.

Em casa, o foco agora era minha família, na minha cabeça todos estavam contra mim, principalmente minha mãe. Os conflitos que podiam ser facilmente resolvidos entre nós duas, se tornavam imensas confusões, fui deixando de ser tão sensível e me tornei agressiva/impulsiva (verbalmente). Eu não desenhava mais.

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Quando eu tinha 16 anos meus pais se separaram, passei a morar com meu pai, conheci um garoto que amei, perdi amizades que não recuperei. Ainda com 16, quando comecei a namorar, sentia-me pressionada a manter relações mais íntimas, mas todo contato físico parecia demais. Me martirizei por isso. Me martirizei pelo fim do casamento dos meus pais. Pelo fim das minhas amizades. Por minha inutilidade. Nada era tão crescente quanto a minha instabilidade emocional e a certeza de que todos ainda me odiavam. No mesmo período tive meu primeiro surto.

As vozes não me deixavam em paz, me gritavam, me humilhavam e me mandavam cortar os pulsos, tomar remédios, tudo que pudesse causar meu suicídio. Eu tinha medo delas, chorava, gritava, queria fugir. Passei a ver o demônio, ele também me queria morta. Sentia cheiros que ninguém sentia e insetos andando sob minha pele.

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Psicólogos e psiquiatras faziam parte da minha rotina. Sedativos, antipsicóticos e outros remédios que foram difíceis de aceitar no início.
Depois de meses de cuidados, fui melhorando até, enfim, sair do surto.
Os delírios ainda ocorrem com frequência, as alucinações com bem menos intensidade.

Aos 18, entrei na faculdade, comecei a cursar psicologia, que amo mais do que poderia expressar.

Com ajuda da psicoterapia e dos conhecimentos que fui adquirindo no curso, hoje reconheço com mais facilidade os sintomas, mesmo que as vezes não consiga e me perca no que é real e no que não é.

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Fui incentivada a voltar a desenhar, e nos desenhos me encontrei. Diferente de antes, não desenho para me distrair, desenho porque na arte consigo encontrar clareza onde tudo é escuridão. O que eu desenho deixa de ser algo que está apenas na minha cabeça. A arte faz parte da minha luta diária, me ajuda a melhorar, me perceber, me orgulhar.

Hoje, apesar de tudo, vivo bons momentos. Tenho amigos que me amam e são igualmente amados, tenho uma família que se esforça para me entender e de mim cuidar. Me percebo mais, me cuido mais, me permito mais. A luta é constante, a vitória dela existe a cada golpe de amor próprio, a cada dia que tenho coragem de levantar da cama, sorrir e tentar.

Não vou desistir!

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30 comments

Holden Caulfield - 28 de novembro de 2017

Vitoria, até mesmo no nome. Talvez perca algumas batalhas, mas certamente vencerá a guerra. Seus desenhos são caprichados e continue pois derivam da pureza da sua alma. Força, Vitória !

Lígia Heck - 28 de novembro de 2017

Vitória ! Seu nome já diz que você é uma vitoriosa ! Não desista, jamais ! E o maravilhoso e importante é o amor que sua família e amigos dedicam a você. Amei a sua arte !!!

Laís - 28 de novembro de 2017

Tu és a menina mais linda que já conheci na vida, em todos os sentidos. Estarei sempre contigo, coisa linda da minha vidinha!

Sarah - 29 de novembro de 2017

Ahh Vitória..como fico feliz em ver teu relato aqui. Parabéns ao Dr. Leonardo por nos proporcionar este depoimento tão profundo e que nos ajuda tanto a entender um pouco mais o transtorno. Muitas vitórias em tua vida, Vitória!

Perpétua - 29 de novembro de 2017

O que faz mais falta é a possibilidade de estudar, cursos, universidade. Admiro essa garota, um exemplo de superação.

Ana - 29 de novembro de 2017

Eu te entendo, Vitória. Com certeza você até já ouviu em alguma fase de sua vida um “Ela faz isso pra chamar à atenção…”. Continue nunca se acomodando nem se deixando desanimar. Sabe, debocharam de Anne Sullivan quando ela, após ter sofrido 9 operações nos olhos e ter que usar permanentemente um óculos escuros pois a luz do sol a incomodava, foi escolhida para ser a educadora de Helen Keller, uma surda cega. Disseram: “Uma cega ensinando outra, que nem vê, nem fala, nem escuta???Kkk.”. Bem, Helen Keller tornou-se profissional de nivel superior e ativista , e as duas hoje são consideradas exemplos da natureza compensatória do nosso viver. Como psicóloga você ajudará ainda mais.

neusa almeids - 29 de novembro de 2017

Lindos desenhos…ah! Quem me dera q minha filha portadora de esquizofrenia praticasse algum tipo de arte. Depois q ficou doente passa o dia todo deitada na cama, vive em total isolamento social. Outro dia uma amiga veio lhe visitar e ela recusou a visita. Apenas levanta da cama pra comer , ir ao banheiro e tomar banho. Ainda bem q vai nas consultas mensais. Espero em Deus q melhore um dia.

Ana - 29 de novembro de 2017

Neusa Almeds… Só uma opinião reflexiva, que se transforma em pergunta: sua filha faz psicoterapia? Terapia ocupacional? Aos pouquinhos, você consegue perceber alguma atividade que ela possa gostar de fazer e ir estimulando-a bem aos pouquinhos, sem obrigar? Coisas como essa ajudam em muitos casos, pois pode fazê- la despertar para um foco que ela não lembra, ou não sabe, ou tem desânimo… Só uma opinião. Deus as ajuda, eu sei que você sabe, mas eu gosto de repetir.

Anna Cristina - 29 de novembro de 2017

Vitória amei seu depoimento! Tenho certeza que muitas vitórias ainda virão!Parabéns!!!

Kelly - 30 de novembro de 2017

Parabéns Vitória! És um exemplo de vitória sobre a esquizofrenia! Não desista! Continue a se ajudar e ajudará muitos ainda, pois, com este depoimento já está ajudando. Nós que convivemos com a esquizofrenia nos sentimos mais fortes diante de um depoimento como o seu. Força e Fé!!!

Ana - 30 de novembro de 2017

É bom ter contato com pessoas esclarecidas, e não levadas a um estado de acomodamento que só prejudica e torna a pessoa manipulável. Isso aí Vitória!

neusa almeids - 30 de novembro de 2017

Oi Ana…respondendo sua pergunta sobre psicoterapia, ela recusa totalmente. Contratei uma psicoterapeuta pra vir em casa e ela expulsou a mulher logo no primeiro dia. Ela ficou nervosa e gritando. Estou dando mais um tempo pra ver se consigo q ela queira. O temperamento forte dela atrapalha o tratamento. Ainda bem q toma os remedios.

neusa almeids - 30 de novembro de 2017

Oi Ana…respondendo sua pergunta sobre psicoterapia, ela recusa totalmente. Contratei uma psicoterapeuta pra vir em casa e ela expulsou a mulher logo no primeiro dia. Ela ficou nervosa e gritando. Estou dando mais um tempo pra ver se consigo q ela queira. O temperamento forte dela atrapalha o tratamento.

Estrela - 30 de novembro de 2017

Passei por vários tipos de abandonos. Aprendi a dar valor ao lado humano, aprendi com meus erros, tropeços e sofrimentos, quando comecei a sentir o sofrimento na pele comecei a desenhar estrelas de Davi, mas como tudo que acontece na minha vida eu preciso me reeducar para o conhecimento, o novo, o significado e a descoberta. E os conhecimentos são me passados por intuição e criatividade. Procure um sentido para tudo isso!

Estrela 2 - 1 de dezembro de 2017

Corrigindo, para não dar vazão há escárnios a manipuladores da informação na mídia social ( sujeitos conservadores que se valem de uma falsa ética alienada e preconceituosa), no indivíduo sempre há o humano, não há lado, mas ser, ser humano.

Clara - 1 de dezembro de 2017

A reforma se inicia pela renovação espiritual do indivíduo.

Um conselho de amiga - 1 de dezembro de 2017

Neusa Almeds, sua filha está certa. Para quem tem esse transtorno não há nada melhor conversar com uma pessoa com sólida formação no evangelho, um capelão seria ótimo. Muitos psicanalistas e psicólogos não tem força moral e espiritual para atender a fragilidades sem sucumbir a um sentimento de dor e perda, levando-os a recorrer a vícios (drogas, álcool ,etc ou recorrer a fofocas para quem sabe assim pedir ajuda para o que são incapazes de resolver) ,por experiência própria, o amor fraterno é o melhor remédio. Procure apoio espiritual, a alma precisa de estudo e conhecimento para evoluir, pois nascemos ignorantes e aprendemos a ler, assim também torna-se necessário instruir-se para progredir.

Mariah Aragão das Neves - 1 de dezembro de 2017

Obrigada Vitoria pelo seu depoimento, eu na escola também nunca tive amigos e sempre servi de piada pros outros. Hoje me formei em fisioterapia, sou pós graduada em educação especial e inclusiva e os amigos que tenho os amo muito e sei que eles me ama também. Essa semana foi bastante conturbada e seu depoimento foi combustível. Hoje sou casada com o Rafa e posso te dizer ele foi enviado por Deus na minha vida. Seus desenhos são lindos e inspiradores. Obrigada por tanta determinação.

Gabriela - 2 de dezembro de 2017

Vitória, parabéns por suas conquistas. Seus desenhos são muito expressivos.

Esclarecimento - 3 de dezembro de 2017

Na esquizofrenia não há promiscuidade, não há prostituição. Mas você é submetido a todo tipo de teste, até chegar ao limite do esgotamento mental e de sua capacidade de resistência ao sofrimento e a dor, sem remédio, sem anestesia, sem vícios, sem ajuda. Meu amigo, é somente você e Deus! Você tem seu melhor amigo, por isso você sobrevive.

Luisa - 3 de dezembro de 2017

Gostaria de ouvir a opinião do Dr. Leonardo sobre o seguinte:
Sou psicanalista lacaniana numa cidade do interior, e atendi algumas pessoas que aparentemente apresentavam ansiedade, as terapias duraram apenas 2 semanas porque não soube interpretar e conduzir a terapia, ao ouvir um relato de que o analisando dizia coisas que me causavam ofensas, apesar de não serem dirigidas a mim, me causavam repúdio. Eu porém nunca soube entender a época que aquilo se passou, o que se passava com a pessoa passei a entender como se fosse um crime. Porém uma advogada me informou que para haver crime tem que haver dolo e intenção, eu fiquei confusa justamente porque comecei a julgar o ato do meu cliente cometido durante um processo de adoecimento e antes de um surto como um dano moral. Como não entendo nada de Direito, gostaria de saber a opinião do sr. que considero opinião médica sobre como nós psicanalistas devemos proceder em relação a revelação de segredo ético sobre a vida do cliente para pedir ajuda. Desculpe , mas é que quando fico nervosa revelo todos os segredos particulares do cliente para os demais conhecidos da área, estou totalmente desorientada. Sugiro que se o sr. puder, divulgar na ABP sobre o famigerado tema psicofobia que acontece frequentemente nos consultórios de psicologia do RJ e se puder me orientar como devo proceder. Depois ouvi dizer que a cliente foi medicada com ansiolítico e se encontra muito bem de saúde, mas falhei ao não pedir a ela para rever a medicação, não tenho experiência em psiquiatria e não sabia que os remédios atuavam melhor do que qualquer terapia, por ter efeito imediato.
Cordialmente,
Luisa

ABP - 9 de dezembro de 2017

A verdadeira compaixão é uma reação motivada principalmente pela emoção e também um compromisso definitivo apoiado na razão. Assim, uma conduta verdadeiramente misericordiosa para com os outros não se altera nem mesmo quando os outros se comportam mal. É praticando a compaixão sem limites que uma pessoa desenvolve o sentimento de responsabilidade pelos semelhantes, o desejo de ajudá-los a superar de forma eficaz seus sofrimentos.” ( Dalai Lama)

Éder Mallet - 11 de dezembro de 2017

Só faltou uma foto sua rs Mto legal seu relato; belos desenhos. Achei eles ricos em sentido, convidativos para uma boa reflexão.

Editor do Portal - 13 de dezembro de 2017

Luisa, realmente a quebra do sigilo profissional, ao menos para a medicina, só pode ser justificado se for pela preservação da vida ou da saúde do paciente ou então se houver a iminência de algum dano maior a terceiros por parte do paciente. Por exemplo, no caso de uma ideia de suicídio, o médico deve quebrar o sigilo e comunicar a alguém da família a intenção do paciente de por fim à sua vida. Outro exemplo, se o paciente manifesta a intenção de ferir ou matar alguém, o médico deve comunicar isso à família. Nos demais casos, o sigilo profissional não pode ser violado. No caso que você traz, caberia ao terapeuta conscientizar seu paciente da necessidade de uma avaliação médica ou de tratamento. No caso de sua recusa, o terapeuta poderia colocar seu limite, p.ex., dizer que para continuar o atendimento precisa que ele procure um psiquiatra, mas creio que quebrar o sigilo por esta razão não seja ético.

Ana - 13 de dezembro de 2017

Luísa, já passei por isso. Eu era a paciente. A psicóloga ( e não psicanalista) disse que eu deveria ir de imediato ao psiwuiatra. De modo muito jeitoso, com tato, ela me disse que só me atenderia se antes eu fosse ao psiquiatra e estivesse tomando os medicamentos. Ela foi firme, mas não me ofendeu. Mas na hora fiquei irada e fui parar , de iniciativa propria, numa emergência comum. Lá, fui medicada e encaminhada ao psiquiatra. Sabe o que estava acontecendo? Em um período de minha vida minhas idéias me levaram a crer que eu não precisava mais de psiquiatra, só de psicóloga. E a psicóloga e o médico da emergência me disseram o óbvio: eu precisava de psiquiatra! Olha, encareco ocorrido como uma progressão em seus conhecimentos profissionais. Ninguém sabe de tudo, e nem tudo é ensinado na Faculdade. Sucesso, Você merece, busca conhecimento. Tem meu respeito como profissional.

Marta - 16 de dezembro de 2017

É por essas e por outra(o)s que nunca mais confiarei em psicólogo(a) nenhum!!

Mauro Manza - 6 de fevereiro de 2018

Sua arte é de uma força expressiva extremamente tocante. Convivemos em família com a esquizofrenia e suas imagens transmitem nosso sentimento cotidiano como mil palavras não fariam… força, muito além de seu transtorno esta sua sensibilidade artística

Mauro Manza - 6 de fevereiro de 2018

Vitória, suas imagens expressão com mais intensidade do que mil palavras as sensações cotidianas daqueles que sofrem ou convivem com a esquizofrenia. Seu talento esta para além de seu transtorno. Sua arte nos faz compreender os delírios. A arte tem essa missão.

Nicole - 2 de abril de 2018

Vitória, nunca comentei num blog antes porque até semana passada assim como voce nao tinha meu diagnóstico. Hoje, abril de 2018 tenho 19 anos e nem sei se voce vai chegar a ler esse comentário/desabafo, mas eu queria dizer que, cada linha sua, eu entendo e vivi igual. Nao entrei na faculdade porque quero seguir a carreira artística e poder ano que vem, em 2019 fazer cursos como design de moda, esse ano estudar numerologia e poder cuidar da minha saúde e da saúde da minha família… Mas até fazer parte de grupos de apoio ainda é dificil pra mim.

SEU DEPOIMENTO ME DEU MAIS FORCAS PRA LUTAR!!! OBRIGADA. Quero viver com essa força e luz e arte que voce me trouxe no seu texto. Obrigada. Siga sendo luz, amor, alegria e paz e ARTE e criatividade por onde passar. conte comigo.mno que puder.

Nicole - 2 de abril de 2018

Vitória muito obrigada pelo seu depoimento.
Consegui fazer um comentário
Voce me deu esperança…
Obrigada
Paz e Luz.

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