Por Alexandre Milanetti

O maior estudo genético internacional já realizado até hoje sobre esquizofrenia identificou grande número de genes específicos que poderiam desempenhar papéis importantes nesse transtorno psiquiátrico. Um grupo de centenas de pesquisadores de 45 países analisou o DNA de 76.755 pessoas com esquizofrenia e 243.649 sem ela para entender melhor os genes e os processos biológicos que sustentam a condição.

Esse estudo realizado pelo Consórcio de Genômica Psiquiátrica (do inglês Psychiatric Genomics Consortium, o PGC) foi liderado por cientistas da Universidade de Cardiff – País de Gales (Michael O’Donovan e James Walters) e teve a participação de pesquisadores(as) da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp (Sintia Belangero, Ary Gadelha, Rodrigo Bressan, Cristiano Noto, Marcos Santoro e Vanessa Ota) e Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (Quirino Cordeiro).

Os(as) pesquisadores(as) encontraram um número muito maior de associações genéticas com a esquizofrenia como nunca antes reportado, e essas associações estão presentes em 287 regiões diferentes do DNA, ‘o código do corpo humano” e, usando métodos avançados, identificaram que dentro dessas regiões 120 genes são capazes de contribuir fortemente para o distúrbio, explica a pesquisadora-líder Sintia Belangero, coautora do artigo Mapping genomic loci implicates genes and synaptic biology in schizophrenia, publicado sobre o tema na última quarta-feira (6/4) na revista Nature, uma das mais importantes e prestigiadas publicações científicas do mundo.

Além disso, os cientistas mostraram que o risco genético da esquizofrenia é visto em genes concentrados em células cerebrais chamadas neurônios, mas não em qualquer outro tipo de tecido ou célula, sugerindo que é o papel biológico dessas células crucial para a esquizofrenia e que esses genes específicos do cérebro podem auxiliar a desenvolver novas terapias para esta grave doença mental.

Os pesquisadores também relatam que este estudo mundial lança a luz mais forte até agora sobre as bases genéticas da esquizofrenia. “Grande parte dos pacientes não respondem bem aos tratamentos atuais, e é fundamental que estudos desse nível sejam realizados para avançarmos na compreensão do transtorno e auxiliar no desenvolvimento de novos alvos terapêuticos”, diz outro coautor do artigo, Ary Gadelha.

“Os resultados revelaram que 24% da origem da doença pode ser atribuída a um tipo de variante genética chamada SNVs (do inglês Single Nucleotide Variants), mas lembrando que outros fatores genéticos podem estar envolvidos como as mutações, além de fatores ambientais também, esclarece a professora Sintia Belangero.

“Pesquisas anteriores já haviam mostrado associações entre a esquizofrenia e sequências anônimas de DNA, mas raramente foi possível vincular as descobertas a genes específicos”, disse o co-líder da pesquisa professor Michael O’Donovan.

“O presente estudo não só aumentou enormemente o número dessas associações genéticas, mas agora também conseguiu associar muitas delas a genes específicos, um passo necessário no que continua sendo uma jornada difícil para entender as causas deste distúrbio e identificar novos tratamentos”, complementa o pesquisador da universidade galesa.

Sobre a esquizofrenia

A esquizofrenia é um distúrbio psiquiátrico grave que afeta aproximadamente 24 milhões de pessoas no mundo e mais de 2 milhões de brasileiros. Isso representa que 1 em 300 pessoas em todo o mundo tem a doença e essa taxa é ainda maior entre adultos (1 em cada 222 pessoas). Ela se inicia mais comumente no final da adolescência ou no início da vida adulta e está frequentemente associada a uma deficiência significativa nas áreas pessoais, familiares, sociais, educacionais e ocupacionais da vida do portador de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além de ser o maior estudo desse tipo já realizado, dessa vez os pesquisadores incluíram no levantamento mais de 7.000 pessoas com ancestralidade afro-americana e latina, pessoas normalmente não incluídas em estudos mundiais. Eles dizem que esse é um pequeno passo para garantir que os avanços que vêm dos estudos genéticos possam beneficiar pessoas além daquelas de ancestralidade europeia.

Algumas iniciativas já estão acontecendo para modificar esse cenário e incluir uma maior representatividade de populações africanas e latino-americanas. A principal delas é o projeto Populations Underrepresented in Mental Illnesses Association Studies (PUMAS), que inclui quatro países na África e três na América Latina, incluindo o Brasil. No país, o projeto começou recentemente sua coleta de dados e é liderado pelo professor Ary Gadelha e pela professora Sintia Belangero (Escola Paulista de Medicina – EPM/Unifesp), com a colaboração do mesmo grupo de pesquisadores(as) já citados.

Embora haja grande número de variantes genéticas envolvidas na esquizofrenia, o estudo mostrou que elas estão concentradas em genes expressos em neurônios, apontando estas células como o local mais importante da doença. As descobertas também sugerem que a função anormal dos neurônios na esquizofrenia afeta muitas áreas do cérebro, o que poderia explicar seus diversos sintomas, que podem incluir alucinações, delírios e distorções de pensamento.

Um estudo complementar envolvendo muitos dos mesmos cientistas e liderado pelo Broad Institute of Harvard (EUA), também publicado em paralelo nesta mesma edição da Nature, examinou mutações que, embora muito raras, têm grandes efeitos sobre uma pequena proporção de pessoas que as carregam, revelando que alguns genes e aspectos que se sobrepõe a outras doenças como autismo e doenças de neurodesenvolvimento.

O Consórcio de Genômica Psiquiátrica é financiado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) dos EUA e, no Brasil, o estudo foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O professor Rodrigo Bressan, também coautor do artigo, menciona que “estudos mundiais como este, que são frutos de uma grande colaboração global, são marcos para a compreensão da origem da esquizofrenia”. Sintia Belangero ressalta que ainda há uma longa jornada pela frente após essas descobertas, mas esses resultados vão facilitar os caminhos a serem percorridos.

“Este estudo demonstra a importância e o poder de grandes amostras em estudos genéticos, a fim de construir conjuntos de dados maiores e mais diversificados”, concordam Marcos Santoro e Vanessa Ota, pesquisadores da Unifesp igualmente integrantes das pesquisas.

Fonte: Unifesp

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