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Entrevista com Dr. Leonardo Palmeira, autor do livro “Entendendo a Esquizofrenia”.

Editor do Portal 25 de abril de 2009 Artigos, Blog 4 comments
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“Entendendo a Esquizofrenia – Como a família pode ajudar no tratamento?” (foto), livro de autoria do psiquiatra Leonardo Palmeira com a psicóloga Maria Thereza Geraldes e a psicopedagoga Ana Beatriz Bezerra, será lançado em 28 de abril pela editora Interciência, na Livraria Saraiva do Shopping Rio Sul, às 19h.

Nesta entrevista, o Dr. Leonardo explica como surgiu a idéia de escrever um livro para familiares de portadores de esquizofrenia, qual o objetivo com o livro e como a família e a sociedade podem ajudar na recuperação do paciente e no combate ao estigma e ao preconceito.

Portal: Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre esquizofrenia para familiares?

Dr. Leonardo: Nós desenvolvemos de 2000 a 2007 um programa de psicoeducação, que vem a ser um curso educativo sobre a esquizofrenia seguido de grupos terapêuticos com as famílias, no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ). Esse programa era permanente e tinha um curso semestral sobre esquizofrenia, que era oferecido aos familiares. Esse foi um dos trabalhos mais gratificantes que fiz nos meus dez anos de psiquiatria. Aprendi muito com os familiares, era uma troca intensa de informações e experiências e eles sempre insistiram muito para que houvesse um material didático, que pudessem levar para casa e deixar na cabeceira da cama. Tanto que a maioria repetia o curso no semestre seguinte, tamanha a demanda por informação. O que eu escutava deles, e que também podia observar nitidamente em alguns casos, é que o conhecimento sobre a esquizofrenia mudava muito a maneira de encararem a doença e de resolverem os conflitos em casa. Nós fazíamos entrevistas antes e depois e era notória a mudança que o programa produzia. Havia famílias que participavam do primeiro ao último curso.

Portal: Vocês pretendem retomar o programa?

Dr. Leonardo: Temos a expectativa de implantá-lo em outra instituição, dentro de um projeto maior e que envolva outros centros multiplicadores. Precisamos falar mais dessa doença nos CAPS, nos centros comunitários, nos espaços da sociedade. Na Suíça, no estado de Vaud, eles organizaram um dia anual para lembrar a esquizofrenia, o Schizophrenia Day, quando ocorrem atividades culturais e são divulgadas informações sobre a doença. Um familiar foi entrevistado e justificou que era preciso falar da esquizofrenia, caso contrário ela voltaria a ser uma doença esquecida pela sociedade e é esta a sensação que tenho.

Portal: Qual a importância do livro e como ele pode ajudar a família e o paciente?

Dr. Leonardo: A idéia do livro é ser um veículo de comunicação em massa. Alguém pode não falar da esquizofrenia em algum canto do país, mas se a pessoa quiser se informar pode ir a uma livraria ou biblioteca, pode acessar a internet e ler a respeito. Diversos estudos em vários centros pelo mundo já comprovaram cientificamente que a informação para a família é a principal aliada do tratamento médico na recuperação do paciente. O número de recaídas e internações é significativamente menor entre pacientes que possuem uma família mais esclarecida e acolhedora. Isso que está acontecendo na mídia, pela primeira vez uma novela em horário nobre ter a coragem de abordar a esquizofrenia, é fantástico. Conheço muitos familiares que são gratos a autora Glória Perez por sua brilhante iniciativa. Os familiares me pediam isso, que a sociedade precisava ouvir mais e saber que doenças como a esquizofrenia existem e podem ser tratadas.

Portal: Que papel você acredita que a sociedade tem diante da doença mental, em especial da esquizofrenia?

Dr. Leonardo: A sociedade precisa perder o preconceito. Uma pessoa que adoece da esquizofrenia não perde suas qualidades, sua identidade, seu caráter, seus princípios. Ela adoece como em qualquer outra doença. Seu sofrimento cresce quando ela encontra obstáculos que são puro preconceito, como a dificuldade de conseguir um trabalho, por exemplo. Se a pessoa está em tratamento, está em boas condições de saúde, tem aptidão para aquela função, demonstra competência, porque não conseguir o emprego? Tenho um paciente que prestou um concurso público, foi quinto colocado geral e hoje trabalha normalmente e é muito capaz naquilo que faz. O próprio filme Mente Brilhante mostra isso. John Nash recuperou-se e voltou a lecionar. O filme Shine conta a história real de um músico que, após adoecer e passar anos de sua vida internado em um hospital, casou-se e fez sucesso se apresentando em concertos de piano. É preciso acreditar no potencial da pessoa e não ofuscá-la pela própria doença. Mas é preciso enfatizar: nenhum desses casos avançou sem o apoio e compreensão da família. Portanto, abrir espaço na sociedade para temas deste tipo é também uma forma de fazer chegar às inúmeras famílias, que talvez nem saibam que têm um caso de esquizofrenia entre elas, a informação e a chance de construirem algo diferente para o futuro.

Portal: O que o leitor do portal vai ganhar a mais com o livro?

Dr. Leonardo: O livro tem maior aprofundamento nos temas relacionados à doença, traz casos clínicos, depoimentos de familiares e tem, ao final de cada capítulo, uma seção de perguntas com as respostas para as principais dúvidas dos familiares nestes anos do programa. Ele possui dois capítulos dedicados especialmente à família, que abordam as emoções e sentimentos despertados pela doença, com exemplos das principais dificuldades enfrentadas no dia-a-dia, e como a família deve agir para ajudar na recuperação do paciente a fim de evitar recaídas. O livro é uma ferramenta útil para compreender os sintomas e o comportamento da pessoa portadora de esquizofrenia, serve de guia prático na solução de variados conflitos, além do que, visa produzir reflexões nos familiares e cuidadores, objetivando mudanças de posturas e comportamentos. O nosso foco é a família, que convive a maior parte do tempo e, por isso, absorve a maior carga de tensões geradas pela esquizofrenia.

4 comments

Magali Mesquita Rosa - 24 de setembro de 2012

Dr. Leonardo,
Estamos com um problema na nossa família: é sobre o meu cunhado que não esta no seu juízo normal, ele vive com mania de limpeza… toma 3 ou 4 banhos diariamente e leva 2 horas em cada banho.
tem manias de limpar o quinta várias vezes e tudo que ele acha no quintal ele queima fazendo fogueira e começa a dar gargalhadas. Hoje dia (24 de setembro), ele esteve em minha casa, almoçou tomou 3 banhos limpou quintal queimou madeiras e deu gargalhadas.

Depois que fez tudo isso, disse que ia embora que tinha um compromisso às 16 horas da tarde.
ele está sem dormir… tem uma força de leão.
a família, levou ele numa viatura da Policia… para um pronto socorro bem próximo de casa, em Alcântara.
O que acontece, os médicos deram os medicamento Haldoll e um outro lá q ninguém soube informar, um tratamento horrível que ele teve… disseram que não dava encaminhamento, devido a falta de vagas nos hospitais Psiquiátricos… amarraram ele e deixaram numa Maca no corredor do Pronto Socorro jogado a própria sorte… o que fazer…o Dr., pode nos ajudar ?

Leonardo Palmeira - 28 de setembro de 2012

Magali, é triste constatar que mesmo nos dias de hoje, com todo o avanço da medicina e das pesquisas, com novas terapêuticas para a esquizofrenia, ainda existem tratamentos como este. Os médicos que trabalham em hospitais públicos chamam isso de “empurro-terapia”, ou seja, empurrar o problema adiante, pela falta de recursos. Se existe indicação de internação de urgência é porque o paciente não pode permanecer em casa, portanto, deveria ter uma vaga em um hospital público, ou então o município ou o estado pagam a diária numa clínica particular e garantem o tratamento para o cidadão. O lamentável é que com isso existe um desgaste enorme para o paciente e para família, que certamente irá ter um impacto na sua recuperação no futuro. Neste caso não vejo outra alternativa a não ser recorrer à justiça para ter garantido seu direito de tratamento, isso é previsto na Constituição Federal, no capítulo que trata do SUS. Um abraço e boa sorte!

Jose elias - 30 de novembro de 2016

Não é querendo ser negativo, mas um único paciente que passou em um concurso público por que você não conhece dez ,vinte?(garanto que você conhece vários que não estaõ empregados. E é claro que John Nash voltaria a lecionar isso não é realidade brasileira(ele é elitizado e dos Estados Unidos) Eu sofro de Esquizofrenia simples e não posso me basear por exceções eu já soube de pessoas que foram barradas em exames médicos de concursos públicos e não foram dois gatos pingados não. Eu sei como é dura a realidade

Editor do Portal - 9 de dezembro de 2016

José, conheço muitos pacientes que estão trabalhando, estudando, produzindo. Embora possa não ser a maioria, há casos com boa evolução que precisam vir à tona para desmistificarmos a doença. A esquizofrenia é muito mal compreendida e o preconceito contra doentes mentais é enorme, infelizmente. São com casos de boa evolução que mudamos esta percepção. Sugiro que leia o livro “Casos de Superação em Esquizofrenia”. No livro, não sou eu somente que relata casos de boa evolução, mas médicos de todo o Brasil, vale a pena!

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