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A recuperação na esquizofrenia: trilhando um caminho possível.

Editor do Portal 4 de março de 2010 Artigos, Blog 11 comments
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A esquizofrenia ainda está associada à idéia pejorativa de doença crônica e degenerativa, da qual a pessoa não consegue se livrar, dependente de medicamentos para o resto da vida e sem melhora. Em geral é esta a visão que muitos adquirem ao receber o diagnóstico. Com o passar dos anos e com a evolução do tratamento esta percepção muda e familiares e portadores conseguem enxergar que é possível ter uma vida normal e produtiva, apesar das limitações ou da maior vulnerabilidade que a doença impõe (leia mais sobre a vulnerabilidade ao estresse na esquizofrenia).

Pesquisas têm demonstrado que 1/3 dos pacientes com esquizofrenia tem uma única crise, se recupera e volta a um funcionamento normal ou muito próximo do normal, com poucos sintomas negativos ou dificuldades sociais e sem recaídas ao longo da vida. Outro 1/3 pode ter duas ou mais crises, apresentar maior dificuldade para retomar suas atividades e manifestar sintomas negativos que interferem em seu funcionamento, mas responde bem aos tratamentos e intervenções psicossociais, alcançando um nível bastante satisfatório de autonomia. Apenas 1/3 dos pacientes tem um curso mais grave, com muitas recaídas, baixa resposta aos medicamentos e maior dependência. Este é o grupo que possui uma forma resistente da doença e que precisa de um tratamento diferenciado, com medicações e estratégias de reabilitação psicossocial e familiar que contemplem a sua complexidade (leia o artigo sobre esquizofrenia refratária).

A recuperação da esquizofrenia não significa simplesmente a estabilização ou cura dos sintomas e a retomada do funcionamento anterior à crise. Ela é um conceito mais profundo e abrangente, que precisa ser construído com o paciente (e com a família) no decorrer de seu tratamento. Trata-se de uma transformação pessoal na maneira de se perceber e de ver o mundo, que parte do indivíduo em direção ao coletivo.

Neste contexto, é preciso lutar contra o estigma e o preconceito existente dentro de si próprio e na sociedade, cultivar a esperança e aumentar o poder e a autonomia pessoal, através das relações com outros indivíduos (família, amigos, vizinhos) e as instituições (centros de reabilitação e tratamento, clubes, igrejas, etc.). Almeja-se que o paciente participe mais ativamente das decisões que envolvam sua vida e seu tratamento e experimente uma vida de ação e participação na sociedade.

Um consenso norte-americano de especialistas propôs uma definição da recuperação na esquizofrenia: “é uma jornada de cura e transformação capaz de permitir à pessoa com transtorno mental viver participativamente na sua comunidade, enquanto luta para alcançar seu pleno potencial.”

É preciso trabalhar valores, sentimentos, projetos e outros objetivos para que a satisfação da vida possa conviver com a vulnerabilidade trazida pela doença. É um processo de descoberta de seus próprios limites, mas também de como esses limites se abrem para novas possibilidades.

→ Dicas que podem ajudar na recuperação:

  1. Jamais abandonar o tratamento e os medicamentos.
  2. Ter um apoio psicoterápico individual. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais indicada.
  3. A família (pais, irmãos, pessoas que convivem diretamente com o paciente) precisa de apoio e orientação. Conhecer bem a esquizofrenia ajuda a mudar atitudes e a lidar melhor com os conflitos do dia-a-dia, beneficiando o paciente.
  4. Estratégias de reabilitação compatíveis com a realidade e demanda do paciente. Evitar a superestimulação através de tarefas que exponham o paciente ao estresse.
  5. Ampliar a rede social, fazer novos contatos e amizades, aumentar a convivência na sociedade.
  6. Ampliar as atividades de lazer da família, através de passeios ou viagens. Isso ajuda a deslocar dos problemas relacionados à doença e aumenta a qualidade dos relacionamentos e da vida em família.
  7. Cultivar hábitos mais saudáveis de vida, com boa alimentação e atividades físicas.
  8. Não fazer uso de drogas (lícitas e ilícitas).
  9. Participar de grupos de portadores e familiares para troca de experiências, engajar-se em iniciativas para reduzir o estigma e o preconceito na sociedade.
  10. Manter o respeito e as regras de boa convivência em casa e nos ambientes sociais.

11 comments

Luciano - 27 de setembro de 2012

Tenho diagnóstico de esquisofrenia leve, mas não concordo em certo ponto o aprofundamento de pesquisas sobre a doença pelo paciente. Acho que o melhor é aceitar a doença como uma limitação que todos nós temos.

Ed Wilson - 6 de novembro de 2012

Concordo com essa iniciativa, convivo diariamente com um portador, acho relevante o apoio dos familiares e amigos.Gostaria de saber como faço pra me engajar em um destes grupos de apoio e entendimento da doença.

Grato!

tenho esquizofrenia, mas luto constantemente para se livrar dela o mais rapido possivel, e vou conseguir. - 5 de maio de 2013

obrigado

nova oportunidade - 24 de junho de 2013

Olá, tenho esquizofrenia há 03 anos, ainda não consegui voltar às minhas atividades, como trabalho e estudo, pois sempre paro com tudo que inicio.

Gostaria de saber o que fazer nesse caso.

Já tomei zyprexa, invega e atualmente geodon. Este último há 4 meses, é possível que ele ainda não tenha surtido efeito em relação aos sintomaas negativos ?

Mariana - 13 de novembro de 2013

A RM com Espectroscopia de meu filho deu o seguinte resultado: A análise do lobo frontal direito mostra importante aumento dos níveis de colina (Co/Cr 1,25) bem como níveis de glutamina e glutamato (Glx).
Esse resultado está ligado a algum transtorno mental?
Obrigada

elaine - 24 de março de 2014

ola,tenho uma vizinha q tem um filho de17 anos q tem esquisofrenia ,sempre quando chego la a encontro chorando,porque o filho dela brigou com a irma de 13 anos e bateu nela falando q tem vontade de mata-la,hoje chegando la ela estava chorando falando q foi separar a briga deles com dois imaos menores e ele bateu nela,chorando ela falou q nao aguenta mais q ela esta com vontade demorrer e matar ele,disse a ela q nao é culpa dele e nem dela ,ela tem 3 filhos menores q ele paga aluguel nao tem marido,e se vira sozinha ,gostaria muito de ajudar ela mas nao sei como,estou me informando sobre a esquisofrenia para saber como posso ajuda-la,gostaria de saber se aqui em Belo Horizonte tem um centro de apoio para ajudar adolecente com esquisofrenia,por favor me ajudem,obrigada.

Julio Cesar - 20 de maio de 2014

Ola boa tarde, tb tenho um irmão com esquizofrenia, mas não aceita que tem, já tentamos de todas as formas convence lo a ir a uma consulta com psiquiatra acompanhado por nos, mas fica nervoso e se tranca no quarto. Hoje ele trabalha, mas qdo chega em casa começa a falar sozinho e xinga pessoas de seu convívio no serviço, trancado em seu quarto, fico com medo que ele faça algo a alguém do próprio serviço onde trabalha, gostaria de saber como lidar com problema desses, minha família não tem nenhuma opção, já fomos a psicólogos e psiquiatras que necessitam a presença dele no local para avalia lo, coisa impossível de fazer é leva lo

marisa - 13 de setembro de 2014

meu filho desenvolveu a doença aos 30 anos toma 1 comprimido de Ziprexa por dia engordou quase 30k ele foi internado por 3 vezes no começo da doença agora já a uns 4 anos não tem mais crise e nem se recusa a tomar o remédio( 1 comprimido de ziprexa ), porém se recusa terminantemente a fazer terapias fez algumas por alguns meses e não quer fazer mais só sai de casa para ir ao médico pegar as receitas do remédio, fora isso não sai de casa de jeito algum é muito triste vê-lo o tempo inteiro de sua vida aqui dentro de casa, ele tem algumas atividades do tipo lava as louças compramos uma esteira e outro aparelho de ginastica as vezes ele usa e também toca violão, ficamos muito triste pois ele se formou-se nos USA e também morou na Espanha, e agora só fica dentro do quartinho dele olhando para sima, quando chega alguém em casa ele toca violão para as pessoas e quando toca musicas de sua autoria todos ficam impressionados com a qualidade delas, choro muito,sem que ele perceba é claro eu e meu marido matemos nossa vida normal saímos muito dançamos , viajamos,e ele sempre em casa . como tira-lo de dentro de casa nem que seja para comprar pão ou sei lá,já pedi até para uma pscicologa fazer terapia aqui em casa ele deu um jeito de sumir com ela. não sabemos mais como fazer para ajuda-lo

Cristina - 19 de setembro de 2014

Marisa, o meu filho desde que começou a tomar Socian melhorou muito.
Já sai de casa por vontade própria sózinho e já sai de casa uma ou outra vez a acompanhar-nos a um jantar ou uma ida ao cinema.No primeiro dia de Socian começou a cantar… nas semanas e meses seguintes cantou várias vezes… coisa que não fazia desde que ficou doente. voltou a ser simpático e muito afectivo e carinhoso como era antigamente. Tem 17 anos.
Já toma Socian há 7 meses e toma também Valeriana para ajudar a reduzir o stress.
E à noite também toma melatonina para ajudar a acertar os sonos pois andou mais de um ano com os sonos trocados.
E já se nota que começa a ter alguma iniciativa para assuntos escolares. Durante um ano parou de estudar.
Agora está de novo com vontade de estudar. Embora não esteja como era (antes tinha notas sempre de 90 a 100%)… mesmo assim estou muito contente porque há melhoras efectivas embora de vez em quando ainda haja algumas expplosões de fúria quando é contrariado.
Espero ter ajudado, Marisa.

LORENA M. DE BARROS - 11 de maio de 2015

Olá,
Gostaria de saber TODAS as possibilidades de tratamento para uma pessoa portadora de esquizofrenia . As melhores abordagens, fora a medicamentosa.. Meu irmão tem esquizofrenia, faz uso de clozapina. Existe internação para retirada da medicação? Meu irmão melhorou da doença mas fica só deitado o dia todo; com a medicação não consegue realizar tarefas simples do dia-a-dia. Adianta viver sem crises numa cama? Mesmo que seja no exterior… poderia me dar alguma dica de onde posso ter acesso a mais informações? Certa vez, tentei homeopatia para tratamento de transtorno de humor, sem muita resposta. Fico apreensiva, pq a crise de uma pessoa com essa doença tem muitas repercussões…
Att
Lorena Barros

Editor do Portal - 28 de maio de 2015

Lorena, não é comum a internação para retirar o medicamento, esses ajustes podem ser feitos pelo médico ambulatorialmente. A clozapina é uma medicação que precisa ser bem administrada, sugiro que converse com o psiquiatra para ver o que está acontecendo com seu irmão. Existe um livro do Dr Rodrigo Bressan que aborda melhor este tema, se chama esquizofrenia refratária. Abs!

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