Entrelaços: apoio às famílias

Entrelaços: apoio às famílias

Entrelaços: apoio às famílias


Entrelaços_logo

Entrelaços_logo

Entrelaços é um programa de psicoeducação do Setor de Família do Instituto de Psiquiatria da UFRJ-IPUB criado em 2011 com o objetivo de educar as famílias que convivem com Transtornos Mentais Severos, como esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo e transtorno bipolar, para que possam lidar melhor com a doença mental, reduzindo o estresse e a sobrecarga na família, solucionando da melhor forma os conflitos e problemas, contribuindo, assim, para uma evolução mais positiva e para a recuperação pessoal de seus entes queridos.

O programa consiste de uma etapa de seminários, para levar a informação de qualidade às famílias, inclusive aos pacientes, e de uma etapa de encontros em grupos de famílias, onde são discutidos os principais problemas enfrentados por eles com o objetivo de buscar conjuntamente soluções eficazes e desenvolver uma expertise para que cada pessoa possa lidar da melhor forma possível com a doença.

O programa Entrelaços tem ampliado a rede social de apoio das famílias que convivem com os transtornos mentais severos, criando grupos de apoio comunitários na cidade do Rio de Janeiro, liderados por familiares e pacientes, recebendo novas famílias que buscam ajuda (para mais informações CLIQUE AQUI).

O Portal Entendendo a Esquizofrenia, comprometido com iniciativas como esta, divulga em primeira mão as mensagens dos seminários do Programa Entrelaços 2017 para familiares e pacientes manterem em mente, para uma relação mais saudável e produtiva, capaz de auxiliar na busca pela recuperação de cada um deles.

Toda a semana publicaremos aqui novos tópicos do que foi abordado nos seminários. Acompanhe!


Seminário 1 – A importância do ambiente familiar nos transtornos mentais severos

1. O transtorno mental não é necessariamente deteriorante! Com um tratamento e um ambiente favorável é possivel ter uma boa evolução e até se recuperar!

2. Um fator preponderante na evolução são as emoções expressadas na família. Atitudes de crítica, hostilidade e superproteção caracterizam alta emoção expressada. E alta emoção expressada contribui para um maior número de recaídas e maior gravidade dos sintomas, levando a um curso mais crônico da doença.

3. Alta emoção expressada aliada ao contato excessivo com o paciente é um forte preditor de recaídas, independentemente do paciente usar ou não medicação. É como se a alta emoção expressada na família anulasse os efeitos protetores da medicação.

4. Atitudes que diferenciam famílias com alta e baixa emoção expressada são: respeito às necessidades de relacionamento do paciente, atitude de legitimidade da doença, ou seja, não negar a doença, nível de expectativa de funcionamento social do paciente, ou seja, reduzir expectativas e cobranças incompatíveis com a realidade, ampliação da rede social, ou seja, aumentar o seu ciclo social e sair para atividades sociais e de lazer.

5. Para fazer essa transformação e baixar o nível de emoção expressada é importante se educar sobre a doença, aprender a solucionar os problemas, melhorar a comunicação, reduzir as expectativas, reduzir as respostas emocionais à doença, reduzir o tempo de contato direto com o paciente e expandir a rede social.

6. Isso é possível através de programas de psicoeducação como o que você começa a participar. Pacientes cujas famílias participaram desses programas tiveram menos recaídas e melhor evolução. Esse efeito pode ser sentido mesmo após 7 anos da intervenção.

7. Para atingir o objetivo é importante participar do programa completo, tanto dos seminários como da etapa de encontros em grupo, que dura cerca de 9 meses. Participar somente dos seminários não é suficiente para ter os benefícios de longo prazo desse tipo de programa.

8. Os encontros em grupo permitem que as famílias compartilhem as experiências e busquem as soluções conjuntamente, fortalecendo e ampliando seus laços sociais, formando uma rede de apoio.

9. Os pacientes são convidados a participar junto com seus familiares. Na nossa experiência, pacientes que participam saem mais fortalecidos, preparados e empoderados e isso contribui para sua recuperação. Contudo, a participação deve ser voluntária, o paciente deve ir se quiser e se sentir-se à vontade. Ele não deve ser forçado ou pressionado a ir, pois se for estressante para ele, os efeitos poderão ser negativos.


Seminário 2 – Introdução às psicoses

1. Os transtornos mentais são chamados de transtorno ao invés de doença, pois não possuem substratos fisiopatológico e anatômico conhecidos, são constructos teóricos baseados em sintomas, funções e evoluções.

2. Os nomes dos transtornos são meras convenções para agrupar determinados sinais e sintomas comuns a um grupo de pacientes. O mais importante é compreender a dinâmica do funcionamento do indivíduo por trás do nome, sem a qual o nome não tem sentido.

3. O diagnóstico psiquiátrico é realizado pela história do paciente e pelo exame psíquico, onde é possível o psiquiatra avaliar as funções psíquicas e cognitivas, como humor, pensamento, sensopercepção, consciência, atenção, memória, dentre outras. Não existem exames que possam diagnosticar com certeza um grupo de transtornos, exceto o grupo das demências.

4. Psicose é o termo utilizado para definir um grupo de transtornos que cursam com a perda do juízo de realidade, ou seja, da capacidade de diferenciar fantasia da realidade.

5. A psicose é um aspecto do indivíduo que influencia a cognição, o humor e o comportamento, mas não resume o indivíduo à isso. Mesmo psicótico, a pessoa pode ter momentos de normalidade, em que possui a razão. Ou seja, ninguém é 100% do tempo psicótico, ainda que esteja em crise.

6. Existem dois tipos principais de psicose: psicose processual e psicose afetiva. O protótipo da psicose processual é a Esquizofrenia e da psicose afetiva o Transtorno Bipolar. A principal diferença entre ambas é que a processual normalmente tem um curso lento e progressivo (como um processo), que pode se desenrolar por anos até eclodir num surto agudo, enquanto a afetiva tem um início mais súbito e um comportamento mais cíclico. Ambas têm sintomas semelhantes, como delírios e alucinações e podem ser difíceis de diferenciar num surto agudo. Ambas prejudicam o funcionamento psicossocial do indivíduo e podem evoluir para um estado crônico se não forem tratadas.

7. As psicoses processuais começam com uma sensação vaga de estranhamento da realidade e de si próprio (desrealização/despersonalização), com uma angústia por não saber o que está acontecendo (humor delirante difuso) e uma necessidade em buscar significados para aquele sofrimento, o que gera as primeiras percepções delirantes e ilusões, que mais adiante podem evoluir para delírios e alucinações. É comum o paciente se isolar mais socialmente e se retrair mais do convívio com a família, o que muitas vezes é confundido com depressão.

8. As psicoses afetivas geralmente começam com variações de humor entre depressão e irritabilidade/euforia, dando a impressão que o humor e o comportamento da pessoa são imprevisíveis. Ocorrem flutuações nas atividades sociais, como trabalho e escola, de acordo com o estado da pessoa, da mesma forma como os relacionamentos podem se tornar conturbados e intensos, alternadamente com o isolamento quando a pessoa está mais deprimida. As distorções da realidade, como delírios e alucinações acompanham as flutuações do humor e tem um viés afetivo (p.ex. delírios de grandeza quando se está eufórico e delírios de ruína quando se está deprimido).

9. A esquizofrenia, como uma psicose processual, pode ser compreendida dentro de 4 diferentes fases de acordo com a evolução e os sintomas. (A) A fase pré-mórbida é caracterizada por sintomas cognitivos (dificuldade de atenção, memória e aprendizado), motores (tiques, distúrbios da coordenação motora fina) e sociais (retraimento emocional, isolamento social) geralmente inespecíficos e de difícil diagnóstico e que podem iniciar-se na infância. (B) A fase prodrômica apresenta os primeiros sinais de psicose, com alguns pensamentos excêntricos, distorções leves da realidade, ilusões ou alucinações espaçadas, mas com o paciente apresentando maior dificuldade para realizar suas atividades, iniciando-se comumente na adolescência. (C) A fase psicótica corresponde ao surto agudo, em que o paciente apresenta os delírios, alucinações, distúrbios do comportamento em maior intensidade. (D) E a fase estável é aquela em que o indivíduo pode experimentar diferentes níveis de recuperação de acordo com o tratamento, a gravidade e o número de recaídas, a demora em iniciar o tratamento e a qualidade do ambiente sócio-familiar. Ele pode melhorar dos sintomas e recuperar sua funcionalidade, pode ficar com algum nível de sintoma e com alguma dificuldade para realizar suas atividades ou pode permanecer com sintomas psicóticos que interferem em sua vida a ponto de não conseguir se envolver em atividades sociais ou ocupacionais, requerendo maior nível de atenção.

10. Um aspecto importante para a recuperação é a precocidade com que se inicia o tratamento. Hoje sabe-se que a psicose provoca uma tempestade química, prejudicando a cognição. Quanto maior o tempo de psicose, maior serão as dificuldades para a recuperação. Infelizmente a média de atraso no tratamento da esquizofrenia ainda é alta, um ano após o surgimento dos primeiros sintomas psicóticos. Um esforço tem sido levar informação às famílias para reduzir a negação e o estigma a fim de acelerar a procura por tratamento adequado.

11. As fases dos transtornos afetivos dependem da síndrome, ou seja, do conjunto de sinais e sintomas. Existem as fases depressiva (predomínio de depressão), maníaca (predomínio da excitabilidade ou euforia) e mista (quando há sobreposição de depressão com excitabilidade). Da mesma forma como na esquizofrenia, pode haver uma fase aguda, em que os sintomas estão mais evidentes, e uma fase estável, em que indivíduos experimentam diferentes estágios de recuperação, semelhante à esquizofrenia, com níveis variados de funcionalidade.

12. A recuperação pessoal é possível para todos os pacientes, independente da gravidade ou do estágio em que se encontram. A recuperação é um processo não-linear com objetivos individuais, onde o desfecho não é necessariamente o retorno à vida que levava antes ou uma vida independente e produtiva, mas o bem-estar e a participação ativa na comunidade, sentindo-se útil e parte dela. Isso é possível alcançar mesmo nos quadros mais graves.

13. A reação da família varia de acordo com cada fase da doença. Antes do primeiro surto é comum a negação, tanto por parte da família como do paciente. A negação aliada ao estigma da doença mental são as principais razões para não se buscar o tratamento. Logo após o diagnóstico são comuns sentimentos de revolta, culpa e medo. A família tenta lidar com a doença e com esses sentimentos de maneira intuitiva, na tentativa e erro, e isso muitas vezes leva a relacionamentos conturbados entre familiares e pacientes, que geram as emoções expressadas.

14. Entre os medos comuns dos familiares e dos pacientes, o que dificulta o início do tratamento, estão: crença de que os remédios são fortes e causam dependência, medo dos efeitos colaterais que impedem o funcionamento da pessoa, se vai ter que tomar o remédio para sempre, o medo da internação e o que fazer quando o paciente se recusa a tomar o remédio, o medo do preconceito e do estigma de ter uma doença mental, as incertezas sobre o futuro e o devido amparo afetivo, financeiro e legal que o paciente terá na ausência de seus pais ou responsáveis legais.

15. A melhor forma de combater esses medos e preconceitos é com a informação! A informação deve ser de qualidade, preferencialmente através de programas de psicoeducação, permitindo um enfrentamento consciente dos problemas. Isso requer compreender melhor a realidade do paciente e dos desafios que estão por vir.

16. Evitar a antecipação desnecessária dos problemas e situações de vida e pensar cada dia de cada vez, procurando solucionar os problemas na medida em que aparecem. A antecipação desnecessária gera mais medo e angústia.

17. Esse processo de educação da família e do paciente deve ser constante e levar a um amadurecimento progressivo. Há sempre algo novo para aprender e aperfeiçoar, seja trocando experiência com pessoas que vivem realidades semelhantes, seja desenvolvendo e aprimorando novas técnicas de solução de problemas e comunicação.

18. É preciso tranquilidade e uma atitude construtiva! Mudar sua postura diante do paciente e do problema, reduzindo o nível de ansiedade e de resposta emocional, cuidar da comunicação entre vocês para que seja possível formar uma parceria, em que todos estejam imbuídos de um mesmo objetivo de recuperação.

19. Uma técnica de comunicação efetiva envolve 4 etapas (método LEAP): (A) ouvir o paciente, compreender o que ele está vivendo, colocando-se em seu lugar. Não antecipar sua opinião antes de ter certeza de que você compreendeu tudo o que ele tem a lhe dizer e que ele entendeu que você o escutou atentamente. (B) empatizar, ou seja, através da escuta, criar uma empatia com o paciente, para que ele enxergue em você uma pessoa em quem ele pode confiar e se abrir, eventualmente até se aconselhar. (C) concordar em discordar: após o estabelecimento desta relação positiva e de confiança, é possível você emitir sua opinião, ainda que seja contrária à dele, sem que isso signifique um rompimento. É possível ter pontos de vista diferentes, sem que isso signifique que uma ou outra parte sejam o “senhor da verdade”. Ter opiniões diferentes pode ser saudável para a reflexão e o aprendizado. (D) formar uma parceria: quando há a empatia e o respeito às diferenças é possível fazer uma parceria para enfrentar conjuntamente as dificuldades, traçando objetivos em comum, um auxiliando o outro a alcançá-los.

20. Uma melhor comunicação reduz o nível de tensão na família e na relação, permite colher mais informações sobre o que ocorre com o outro, tem menor risco de desavenças ou hostilidade, tem maior chance de cooperação, permite conhecer e compreender melhor as demandas do paciente (o que ele deseja e consegue executar versus o que você gostaria que ele fizesse).

21. O familiar deve adotar uma postura e um tom conciliador, evitando momentos de tensão e confronto, com respeito ao paciente e às suas demandas, buscando compreender as consequências emocionais que um pensamento ou comportamento do paciente provoca nele. Somente lidando melhor com essas consequências emocionais é possível influenciar nas causas e nos comportamentos perturbadores (regra dos 3C’s: causa-comportamento-consequência).

22. Dar feedbacks positivos quando o paciente faz algo que lhe agrada ajuda a reforçar comportamentos positivos e a fortalecer as relações. Isso significa valorizar os avanços em detrimento dos problemas.


Seminário 3 – Principais sintomas da Esquizofrenia e estratégias de enfrentamento

1. Os sintomas da esquizofrenia são agrupados em três domínios principais: sintoma positivo, negativo e cognitivo.

2. O termo sintoma positivo e negativo deriva da neurologia, que considera que centros cerebrais superiores na evolução das espécies inibem centros inferiores mais primitivos. Assim sendo, lesões nos centros superiores acarretariam na perda da função superior (por isso sintoma negativo, de perda) e na liberação dos centros inferiores (por isso positivo, porque não seriam mais inibidos).

3. Na psiquiatria, sintomas como delírios e alucinações são considerados positivos e falta de vontade e da afetividade considerados negativos. Sintomas cognitivos representam alterações da cognição, como problemas de atenção, memória e função executiva.

4. Delírios e alucinações são manifestações psíquicas que são experimentadas pelo indivíduo como reais, acompanhadas de certeza absoluta e aceitação passiva. Isso porque os delírios são ideias que se originam em si próprias, não derivam de alguma experiência ou estado de humor, não podem ser corrigidas ou influenciadas pela vontade ou pelo convencimento e são irredutíveis. Já as alucinações possuem as mesmas qualidades da percepção real, pois possuem corporeidade, nitidez, acontecem fora do corpo do indivíduo, são estáveis e não podem também ser influenciadas pela vontade ou pelo convencimento. Portanto, é inútil e estressante confrontar delírios ou alucinações com fatos da realidade, gerando conflitos com o paciente e afastando-o do convívio com a família

5. As alucinações podem ser auditivas (as mais comuns), visuais, táteis, olfativas e gustativas. Existe um sexto tipo de alucinação que ocorre dentro do corpo do indivíduo e que pode gerar a sensação de que os seus órgãos não estejam funcionando direito, chamada de alucinação cenestésica. O comportamento do paciente fica frequentemente alterado em decorrência das alucinações e esta é a única forma de suspeitarmos que elas estejam ocorrendo, a menos que o paciente nos verbalize (p.ex. um paciente recusa-se a comer porque sente gosto de veneno na comida, um paciente toma diversos banhos num dia porque sente cheiro de enxofre no seu corpo).

6. Pseudoalucinações são alucinações que carecem de corporeidade e extrojeção, sendo o exemplo mais claro vozes que falam dentro da cabeça do paciente. Ilusões são alterações da percepção a partir de um objeto real, p.ex. o paciente pode achar que uma mancha na parede é um vulto de uma pessoa e ter medo de permanecer no ambiente.

7. Os delírios podem ser classificados de acordo com a temática. Os delírios mais comuns são os de autorreferência (achar que as pessoas estão lhe olhando ou comentando a seu respeito) e os persecutórios (achar que as pessoas estão lhe perseguindo). Mas podem ocorrer delírios místicos-religiosos, de influência ou possessão, de grandeza, culpa, ciúmes, fantásticos, dentre outros.

8. Geralmente o paciente possui um delírio central (p.ex. estar sendo monitorado e perseguido pelos vizinhos) que se articula com dezenas ou centenas de delírios secundários ou pseudo-delírios que servem à trama delirante. Os pseudo-delírios podem ser interpretações ou percepções do ambiente em que o paciente vive e que ele atribui um significado delirante (p.ex. ele acredita que seus pais sejam cumplices dos vizinhos, porque duvidam de suas experiências e não agem mais de forma natural com ele).

9. Ainda como parte dos sintomas positivos podem ocorrer alterações formais do pensamento, ou seja, pensamentos confusos, sem um encadeamento lógico, embaralhados, repetitivos. Esses pensamentos são classificados como afrouxamento dos nexos associativos.

10. Comportamentos estranhos, inadequados, bizarros ou mesmo agressivos são consequência das manifestações primárias da psicose. Um paciente pode se despir porque uma voz lhe mandou que fizesse ou andar com uma faca por acreditar que esteja sendo perseguido. Portanto, para compreender o comportamento do paciente é necessário acessar suas vivências e compreender o contexto que ele está vivendo.

11. Para os sintomas positivos a melhor resposta é o tratamento medicamentoso. Antipsicóticos são eficazes no combate aos sintomas negativos, com taxas de resposta na faixa de 80%. Portanto, a ocorrência de sintomas positivos deve sempre sinalizar para a necessidade de ajustar a medicação ou rever o tratamento.

12. O familiar deve utilizar o método LEAP, de escuta reflexiva e empática, e sempre evitar o confronto com o paciente e com suas ideias delirantes. É importante mostrar ao paciente que ele pode confiar e que ele está seguro em casa. Caso o paciente não esteja em condições de assumir responsabilidades, o familiar deve pedir autorização a ele e assumir temporariamente, mas tomando decisões em conjunto com ele, com cuidado para não passar por cima dele.

13. O familiar deve construir um diálogo aberto com o paciente para ser capaz de avaliar riscos que o paciente possa correr devido à crise psicótica aguda, como riscos de suicídio, riscos à integridade física do paciente e de terceiros, risco de obediência a vozes imperativas.

14. Diante do paciente em crise, o familiar deve seguir os dez mandamentos em caso de crise: (1) Lembre-se que você não pode discutir com a pessoa em crise. (2) Lembre-se que a pessoa pode estar assustada com a própria perda de autocontrole. (3) Não manifeste irritação ou raiva. (4) Não grite. (5) Não seja sarcástico. (6) Reduza coisas que provoquem maior distração (desligue TV, rádios, luzes fluorescentes que piscam, etc). (7) Peça a qualquer visitante casual para ir embora, quanto menos gente, melhor. (8) Evite o contato olho a olho de forma contínua. (9) Evite tocar a pessoa. (10) Sente-se e peça a pessoa para se sentar também.

15. Os sintomas cognitivos mais comuns na esquizofrenia afetam a atenção, a memória verbal e o funcionamento executivo. Os pacientes podem ter dificuldade de concentração ou de prestar atenção em dois objetos ao mesmo tempo (dificuldade de flexibilizar a atenção), podem ter dificuldade de gravar e/ou recordar eventos/histórias da memória de longo prazo e podem ter dificuldades executivas, como memória de trabalho, impulsividade, dificuldade de planejamento e tomada de decisão. Os pacientes podem ficar lentos no raciocínio e nas atividades por essas dificuldades cognitivas.

16. Os sintomas cognitivos geralmente precedem o primeiro surto e são vistos como causas para sintomas positivos e negativos (p.ex. alucinações podem ser pensamentos do próprio paciente que ele atribui a fontes externas e falta de vontade pode ser decorrente da disfunção executiva que impede o paciente de realizar suas atividades).

17. Os sintomas cognitivos ocorrem por uma disfunção nas conexões nervosas (desconexão neuronal) entre as áreas frontais e da linha média do cérebro (sistema límbico e cerebelo).

18. Outra função cognitiva que geralmente está acometida na esquizofrenia é a metacognição ou teoria da mente. Essa função permite que se forme uma teoria da mente do outro, gerando a empatia e a capacidade de deduzir sentimentos dos outros através do comportamento (intuição). Pessoas com esquizofrenia podem ter dificuldade de avaliar expressões faciais de outras pessoas (p.ex. tristeza, alegria).

19. Sintomas cognitivos levam ao sentimento de incapacidade, impotência e baixa auto-estima, interferindo com as atividades sociais e laborativas, muitas vezes causando procrastinação, erros de planejamento, impulsividade, decisões precipitadas e uma tendência a se ter um julgamento mais emocional do que racional. Isso interfere também no insight e na crítica sobre a natureza patológica dos sintomas. Pacientes podem ter também maior dificuldade para compreender situações sociais, complexas ou abstratas.

20. Os sintomas cognitivos podem ser mapeados através de uma testagem neuropsicológica e podem ser alvos de tratamentos como reabilitação cognitiva e treinamento metacognitivo.

21. Cobranças podem ser prejudiciais por não considerarem as limitações cognitivas do paciente, por estarem focadas naquilo que a família entende como importante e não naquilo que o paciente tem capacidade ou gosta de fazer. Demandas além da capacidade cognitiva do paciente podem trazer estresse e deixa-lo mais vulnerável a novas crises.

22. Familiares e pacientes devem reavaliar suas expectativas antes da doença com base nas limitações cognitivas que se imponham, desenvolvendo novos objetivos, mais compatíveis com a realidade.

23. A comunicação com o paciente deve levar em conta a capacidade cognitiva dele: utilizar-se de linguagem clara, objetiva e com menor conteúdo emocional; cuidar da linguagem corporal, evitando expressões que possam confundir o paciente; pedir o feedback ao paciente para se certificar que se fez entender; utilizar o método LEAP; cuidado com abstrações, seja mais concreto.

24. Sintomas cognitivos não significam que o paciente seja incapaz. Uma recuperação deve priorizar o sujeito e sua capacidade de ação e autoria, ou seja, o que ele deseja e é capaz de executar, compartilhando as decisões e ajudando-o a alcançar seus objetivos. Essa abordagem permite que o paciente se empodere sobre sua vida.

25. A diminuição da vontade está relacionada à dificuldade de planejamento e execução, bem como de monitoramento ponto a ponto, já que os pacientes possuem o desejo de realizar as atividades como as outras pessoas. Isso leva a dificuldades de estudo e trabalho, isolamento social e em casos extremos a descuido da aparência e higiene e inibição do comportamento (falar pouco, mover-se lentamente).

26. Não confundir a falta de vontade com preguiça! O paciente não consegue controlar esse sintoma. Por essa razão muitos familiares criticam ou cobram o paciente, elevando a sobrecarga emocional. A melhor forma de corrigir isso é com a informação através de programas de psicoeducação e compartilhando a experiência com outras famílias em grupos de apoio, rever as expectativas depois da doença, reduzir as cobranças e críticas e evitar a super-estimulação. Mesmo coisas boas ou prazerosas podem ser super-estimulantes se não estiverem de acordo com o paciente.

27. A melhor forma de abordar sintomas como a falta de vontade é através do tratamento comunitário, como treinamento de habilidades sociais, arteterapia, grupos par-a-par e através da terapia cognitivo-comportamental. Tratamento medicamentoso não têm muito efeito nos sintomas negativos, embora seja importante avaliar se o remédio não está agravando os sintomas negativos por causa da impregnação.

28. O sintoma que acomete a afetividade do paciente é chamado de embotamento ou esmaecimento afetivo. É importante diferenciar que o sintoma é sobre a expressão de afetos e não sobre a capacidade de ter sentimentos. O paciente pode ter dificuldade de externalizar o que sente, seja pela expressão facial, tom de voz ou verbalmente. O paciente pode parecer não ter empatia ou parecer monótono, como se não tivesse sentimento pelas pessoas, mas essa é uma avaliação equivocada a partir da sua dificuldade de demonstrar o que sente.

29. A dificuldade na afetividade dificulta o relacionamento social, reduz a competência social e aumenta o estigma.

30. Evitar pré-julgamentos e rótulos, perguntar ao paciente como ele se sente antes de tirar suas conclusões, demonstrar respeito pelos sentimentos dele.

31. Tratamentos que possibilitem outras formas de expressão emocional, como musicoterapia, arteterapia, teatro ajudam a melhorar a afetividade.

32. Os sintomas negativos têm relação com o estigma social e o auto-estigma, que são os principais obstáculos à recuperação para uma vida comunitária mais participativa. É importante frisar que a doença não é o indivíduo e sim apenas uma parte da expressão de sua vulnerabilidade. Mas as pessoas têm qualidades individuais para superar a doença que não são afetadas por ela. O paciente precisa de ajuda para enxergar suas qualidades e sua força interior para diferentes possibilidades de recuperação. A esperança e uma visão mais humana da doença mental são imprescindíveis para o resgate do sujeito nesse processo de recuperação.

33. O uso de drogas, álcool e tabaco é três vezes ou mais comum na esquizofrenia do que na população geral. Pacientes com esquizofrenia que usam ou que são dependentes de drogas ilícitas e/ou álcool têm maior gravidade de sintomas, pior resposta a tratamento, maior chance de não aderir a tratamentos, maior risco de recaídas e hospitalizações, maiores prejuízos sociais (como abandono familiar, moradia de rua, crimes/detenção), maior risco de suicídio/homicídio, maior prejuízo cognitivo e pior evolução.

34. Esses pacientes necessitam de um tratamento concomitante para dependência química, preferencialmente no mesmo serviço em que se tratam para esquizofrenia e com equipes integradas para compartilharem objetivos comuns de tratamento, beneficiam-se mais do tratamento com antipsicóticos injetáveis de longa ação (ou de depósito) e necessitam mais dos tratamentos psicossociais.


Seminário 4 – Causas biológicas e ambientais das psicoses

Aguardem!!

Assista sábado 21/10,AO VIVO AQUI!!