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Lares que curam

Editor do Portal 10 de junho de 2014 Artigos, Blog 8 comments
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Um aspecto central na recuperação de alguém que sofre de um transtorno mental é o seu lar e as pessoas com quem convive diretamente. Na maior parte das vezes estamos falando de pais, irmãos, cônjuges e filhos.

Quando uma pessoa adoece de um transtorno mental é comum que o seu lar também sofra mudanças. Muitas vezes essas mudanças já vinham ocorrendo antes até do adoecimento. Como uma das características fundamentais do adoecimento mental é a vulnerabilidade da pessoa ao estresse e aos eventos comuns da vida, é frequente que conflitos familiares apareçam como fatores significativos que podem agravar o quadro mental do paciente.

Não se trata de culpar a família pela doença, afinal existem razões sociais, psicológicas e biológicas que rondam o adoecimento e que nem sempre são relacionadas à dinâmica familiar. Porém, devido à maior sensibilidade da pessoa aos conflitos, às vezes pré-existentes, eles são capazes de elevar o estresse e a demanda emocional da pessoa que nem sempre consegue contorná-los.

Pessoas que se recuperaram de um transtorno mental reforçam a importância do lar em sua recuperação. A moradia do paciente é uma preocupação também dos serviços de saúde mental, principalmente depois que pesquisas demonstraram que pacientes egressos de hospitais voltavam a ser internados quando moravam com familiares com comportamentos como cobranças excessivas, críticas, expectativas incompatíveis, superproteção ou superenvolvimento afetivo.

Na maior parte das vezes esses comportamentos são automáticos e intuitivos, o familiar age com a intenção de ajudar o paciente a reagir à doença, sem muitas vezes notar o quanto prejudicial possa ser a sua atitude. Outras vezes o familiar pode estar emocionalmente esgotado e também incapaz de lidar com as mudanças que um transtorno mental traz para a convivência. E em algumas situações o familiar pode também estar doente e necessitar de tratamento.

Em todos os casos um ponto em comum é a falta de informação sobre as doenças mentais, a dificuldade de aceitar a doença como se aceita qualquer outra, como a hipertensão ou a diabetes, de compreender que os sintomas não estão sob controle do paciente e que não depende somente dele a melhora.

A dificuldade do familiar de compreender e aceitar o transtorno mental de seu ente querido também têm relação com o conceito que ele próprio tem sobre a doença mental, algumas vezes cercado pelo estigma e o preconceito que em nós é incutido pela sociedade.

Outro pensamento comum, principalmente quando o paciente inicia o tratamento, é que os remédios psiquiátricos irão curar a doença e que pouco depende dos demais atores psicossociais. É crescente a falsa ideia de que medicamentos curam os transtornos mentais, como se não dependesse também dos fatores psicológicos, sociais e familiares aos quais o paciente está constantemente exposto. Se o paciente não melhora a contento com o tratamento médico, ou a culpa é do remédio, que está errado, ou do paciente, “que também não se ajuda”.

O problema é muito mais complexo do que isso. Medicamentos têm eficácia em torno de 60% e esta eficácia é pontual, pois os estudos avaliam os pacientes ao longo de um período determinado, não existe um seguimento por anos de tratamento.

Ocorre que um paciente pode melhorar inicialmente com a medicação, mas parar de responder depois de algum tempo, porque ele não está feliz com a sua vida e com o seus relacionamentos. Ou mesmo não responder ao medicamento, simplesmente por que os estressores são tão prevalentes que a medicação nunca é suficiente.

Infelizmente, com o avanço da psicofarmacologia, inegavelmente um progresso na saúde pública, difundiu-se amplamente a ideia de que medicamentos são soluções definitivas para todo sofrimento mental. Há muito mais desestímulo à psicoterapia, terapias de família, terapias ocupacionais, dentre outros tratamentos psicossociais, do que há 20 ou 30 anos. Os próprios pacientes se mostram resistentes à ideia de fazer qualquer outro tratamento que não seja tomar os remédios.

Recuperar-se de um transtorno mental é algo complexo e que exige investimento em diferentes frentes, da mesma forma que sua causa é multifatorial. Envolver no tratamento todos os aspectos da vida da pessoa é, portanto, necessário para quem quer verdadeiramente se recuperar. Trabalho, família, moradia, aspectos psicológicos, ocupar-se com atividades prazerosas e que deem sentido à sua vida é tão ou mais importante do que o remédio. A busca pelo bem-estar deve ser do cotidiano da pessoa que sofre de um transtorno mental e daquelas que convivem mais intimamente com ela.

Por isso selecionamos algumas dicas importantes para aqueles que convivem com alguém que esteja em sofrimento:

1) Procure se informar sobre a doença mental

Existem livros de psicoeducação e auto-ajuda que podem ser úteis, sites na internet sobre os diversos transtornos psiquiátricos, fóruns de pacientes que podem servir de troca de experiência e informações.

Outra dica importante é solicitar um horário com o médico que assiste o paciente para obter informações sobre a doença e dicas de como é possível ajudar em cada caso.

Procure sempre tirar todas as suas dúvidas. Quanto melhor informado estiver, mais capacitado estará para ajudar seu ente querido.

Busque também ter uma visão menos fatalista e mais esperançosa em relação ao futuro. Não se deixe levar por estigmas e estereótipos. Por isso assista a depoimentos de outras pessoas que se recuperaram de transtornos mentais.

O que você pensa sobre doenças mentais influencia demais sua atitude com o paciente, portanto, é necessário olhar para seus próprios preconceitos. Se você está ainda numa fase de negação ou revolta, precisa buscar ajuda para passar desta fase e seguir adiante.

2) Tenha mais disponibilidade para ouvir

O paciente precisa ser ouvido e acolhido em seu sofrimento. Normalmente transtornos mentais trazem um sentimento de fracasso e frustração, é comum que pacientes se culpem por terem adoecido e se menosprezem, acreditando que não possuem valores ou crédito com outras pessoas. Naturalmente buscam o isolamento. Portanto, uma atitude acolhedora e a disponibilidade para ouvi-lo pode ajudar muito.

Procure ouvi-lo sem julgá-lo ou emitir sua opinião. Existe uma tendência natural de querermos emitir nossa opinião, contra-argumentar, tentar convencer o outro do nosso ponto de vista. O paciente precisa de uma escuta reflexiva, interessada em compreender suas vivencias, por mais estranhas que inicialmente possam parecer. É preciso entrar aos poucos no mundo dele, entender seu ponto de vista e ter empatia com o seu sofrimento: como você se sentiria no lugar dele?

Essa é uma mudança de postura que lhe permitirá olhar para o sofrimento de uma outra perspectiva, de onde você será mais capaz de ajudá-lo.

3) Seja mais tolerante e preserve sempre o seu lar

O paciente que adoeceu é vulnerável ao estresse, a barulhos, a tumultos, a muito estímulo. Cabe a cada familiar fazer inicialmente um diagnóstico do que mais incomoda o paciente e procurar preservar o ambiente da melhor forma possível. Isso será benéfico inclusive para a resposta ao tratamento médico. Pacientes que contam com um ambiente mais favorável irão responder a doses menores de medicação e terão maiores chances de recuperação.

Evite os comportamentos como críticas, cobranças, discussões, abordar temas polêmicos ou discutir diferenças antigas. Um comportamento demasiadamente afetivo, como preocupações exageradas, necessidade de estar constantemente em contato ou controlando os passos do paciente, também pode ser prejudicial. A forma de perceber isso é se sua atitude desperta algum tipo de reação de reprovação ou repulsa. Caso isso ocorra, procure respeitar o limite que o paciente estabelece e solicite o auxílio de outra pessoa da família com quem ele tenha uma melhor relação, do seu psicoterapeuta ou do médico.

4) Procure estabelecer uma relação de parceria

O que se almeja e o que consideramos necessário para que o familiar seja um facilitador no processo de recuperação é o estabelecimento de uma parceria em que sejam respeitadas as crenças, os desejos e os projetos do paciente como ele sendo o maior interessado e responsável por sua recuperação.

Mesmo que isso possa parecer num primeiro momento improvável, seja devido à doença ou a questões pessoais, esta atitude deveria ser default, ou seja, padrão para todos os casos, pois é através desta parceria entre familiar e paciente que a recuperação pessoal têm mais chances de acontecer.

Nessa parceria o familiar não impõe seu pensamento como uma verdade absoluta ou algo que precisa ser seguido, mas como uma opinião que possa servir de reflexão ao paciente para que ele possa considerar outras alternativas e experimentar por ele mesmo sua utilidade.

Portanto, numa parceria a forma como você emite sua opinião é muito importante. Humildemente você pode considerar emitir uma opinião contrária a dele, concordando inicialmente que pessoas podem ter opiniões divergentes, sem a necessidade de rompimento ou desavença, e que sua opinião é apenas uma opinião, que você não é o senhor da verdade e que pode estar errado, mas que gostaria de discordar em alguns pontos como forma de ajudá-lo a considerar outras alternativas.

Mesmo que isso seja complicado e signifique num primeiro momento fazer concessões que possam ser difíceis, o que se almeja é estabelecer um canal livre para o diálogo e um relacionamento positivo em que a troca seja possível e que sua opinião não seja rechaçada meramente por ser a sua opinião.

Para os pacientes a emoção que permeia um relacionamento, como, p.ex., na forma como as coisas são faladas, é muitas vezes mais forte do que o seu conteúdo, impossibilitando que ele ouça o que o familiar tem a dizer, por melhor que seja a sua intenção.

Outro ponto fundamental nesta comunicação é que se conheça os assuntos que o paciente julga serem importantes na sua vida e os enfatize em relação àqueles que o familiar prioriza. O foco não deve ser naquilo que o paciente não seja capaz de fazer, mas naquilo que ele tenha condições de realizar hoje.

Trabalhar com expectativas menos complexas e um dia de cada vez, ao invés de projetar muito para o futuro, pode ajudar na evolução gradativa para tarefas ou atividades mais trabalhosas. Este processo de transição deve ser liderado pelo paciente, sendo importante que ele se sinta agente ativo, que ele formule seus próximos passos e objetivos de curto e longo prazo. Ele pode contar com ajuda terapêutica e familiar, mas sem que os outros se coloquem à frente de seus interesses ou de suas ações.

Esta prática da parceria precisa ser um exercício constante e o familiar normalmente encontra muita dificuldade, até por ser parte emocionalmente envolvida. A sugestão é buscar ajuda através do psiquiatra que assiste o paciente, de um psicoterapeuta ou terapeuta de família ou de grupos de auto-ajuda, compostos por familiares e pacientes que partilham de experiências semelhantes.

A experiência da Suécia

Na Suécia existe uma iniciativa que tem prosperado e ajudado muitos pacientes a se recuperarem desde 1987.

Famílias voluntárias recebem pessoas com transtornos mentais diversos para morarem com elas por 1 ou 2 anos. Normalmente essas pessoas não conseguem viver em suas casas, têm recaídas ou precisam aumentar seus medicamentos para conseguirem um nível razoável de estabilidade emocional. Enquanto isso, a família original participa de grupos terapêuticos e o paciente de uma psicoterapia, além de manter seu tratamento médico.

Depois de serem acolhidos pelas famílias voluntárias, os pacientes conseguem melhorar dos sintomas, atingir um nível de amadurecimento, empoderando-se e retomando suas atividades e, até mesmo, reduzir ou suspender os medicamentos. Embora este não seja o objetivo maior dessa iniciativa, o fato de pacientes reduzirem ou suspenderem os remédios demonstra o quanto o lar é importante na recuperação.

Após o período estipulado, pacientes retornam às suas famílias ou seguem os passos que acreditam ser os melhores para sua vida.

Assista ao documentário Healing Home, de Daniel Meckler, e conheça a experiência do Family Care Foundation, da Suécia, e compreenda melhor como a transformação do lar para quem sofre de um transtorno mental é crucial para a recuperação.

8 comments

rute araujo - 11 de junho de 2014

Este artigo é muito esclarecedor e apresenta a formulação de passos a serem seguidos, com clareza e objetividade, para que possamos nos orientar em como proceder nos casos de doenças mentais. Como é muito difícil para quem está envolvido como família, essas orientações são muito valiosas.
Muito obrigada.

Cristina Passos - 11 de junho de 2014

Muito bom e esclarecedor. Ajudou muito.
obrigada

vanira regina vergani - 16 de junho de 2014

COMO JÁ HAVIA FALADO EM OUTRO COMENTÁRIO

A FAMÍLIA É SUPER IMPORTANTE TANTO PARA NÓS QUE CONVIVEMOS COM O PACIENTE

QUANTO ELES, PUDE ENTENDER MEU FILHO MELHOR E ACEITAR MELHOR A DOENÇA

AMO MEU FILHO QUE PASSEI VIVER A VIDA DELE PARA DEIXAR S MINHA

VANIRA VERGANI JORNALISTA

Paulo cesar - 17 de junho de 2014

Gostei muito do testo esta escrito o gue eu gueria entende r pena gue nao consigo ainda,valeeeeo

Tereza - 9 de outubro de 2014

ISSO SIM É UMA ESTRUTURA FUNCIONAL. O ÚNICO TIPO DE ESTRUTURA QUE PODERIA ELIMINAR EM GRANDE PARTE A NECESSIDADE DE HOSPITAIS PSIQUIÁTRICOS (QUE FICARIAM RESERVADOS PARA OS CASOS MAIS INCAPACITANTES OU MAIS VIOLENTOS). FECHAR VAGAS NOS HOSPITAIS, COMO FIZERAM NO BRASIL, PIORA AS COISAS. TAMBÉM ACREDITO QUE GRANDE PARTE DOS QUE SOFREM DE TRANSTORNOS MENTAIS POSSAM PARAR DE SE MEDICAR, SE BEM ATENDIDOS.

Marli - 21 de novembro de 2015

Este artigo é muito bom , é esclarecedor concordo quando diz que a família tem fundamental relevância no tratamento e recuperação do paciente com transtorno mental , pois meu esposo toma medicação controlada a mais de 36 anos parou por um período e ficou doente por situações de estresse alto como perda de dois irmãos em ocasiões diferentes nessas duas ocasiões teve surto psicóticos logo após o acontecimento . Ele estava sem medicação , por isso ficou doente porém a mais de dez anos ele está bem trabalha ,temos uma vida de qualidade graças a Deus… porém também a família precisa ter um acompanhamento e fazer alguma terapia de grupo com pessoas que passa por situações semelhantes e também por profissionais com preparação psicologica.

Antonio Honorato - 21 de abril de 2016

Parabéns! E mais uma vez obrigado por esclarecimentos e uma ótima fonte de ajuda a todos.

Jaci Sanches De Moura - 15 de março de 2019

Minha filha de 39 anos tem esquizofrenia desde os 18, mas só aos 23 anos teve o diagnóstico. Obrigada

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