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Esta sou eu: o depoimento de Patricia Deegan.

Editor do Portal 16 de fevereiro de 2012 Blog, Depoimentos 25 comments
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Patricia Deegan é PhD em psicologia, co-fundadora do Instituto para Estudo da Resiliência Humana da Universidade de Boston e diretora sênior do Joshua Tree Center para estudos de ex-pacientes.

Esta sou eu!

Eu comecei a ter os primeiros sintomas de esquizofrenia nos primeiros anos da minha faculdade, tanto que tive que começar um curso de cada vez. Enquanto os outros alunos se preocupavam com a matéria eu procurava me controlar para não pirar, achava que todos na sala me olhavam, que tinham pensamentos a meu respeito, ficava muito paranóica, lutando contra os meus medos.

Primeiro eu fiquei aterrorizada de contar para as pessoas o que se passava comigo, achando que eu fosse ser expulsa da faculdade. Eu comecei a levar um gravador para as aulas, era a forma que eu achei de aprender as lições. Chegava em casa e, quando me sentia mais confortável, escutava as aulas. Eu usei outras estratégias como esta para me fortalecer, como um fisiculturista que precisa exercitar seus músculos, eu precisava construir minhas habilidades para sentar na sala de aula e lidar com as paranóias, com as vozes estressantes que escutava e com minha ansiedade.

Quando comecei a ter esta habilidade, passei a ter mais sucesso, me sentir mais à vontade na sala de aula, mas mesmo assim precisei voltar ao hospital. Eu tive nove internações, a última foi em 1994. Algumas pessoas ficavam surpresas com isso. O que eu acho que aconteceu foi que à medida que fui amadurecendo, eu aprendi mais a ser eu mesma. Eu ainda ouço vozes, eu me torno hiper-reativa aos estímulos algumas vezes, não posso ficar no meio de muitas pessoas, fico extremamente irritada, eu tenho traumas que ainda não foram resolvidos apesar dos anos de análise.

Eu cheguei à conclusão que eu sou assim, isto não é esquizofrenia, não são sintomas, eu sou assim, Deus me fez assim, o que posso dizer? Eu parei de tentar me modificar. Sabe, eu sou estranha mesmo, sou lésbica, oficialmente casada com minha parceira em Massachusett, estamos juntas desde 1986, temos uma linda filha de nove anos, uma antiga casa de fazenda, ela é uma “sobrevivente psíquica”, eu sou uma “sobrevivente psíquica”… eu penso que ficar bem é não ter grande vulnerabilidade nas coisas. Eu percebo que muitas pessoas lutam, todo mundo tem momentos ruins, todo mundo tem dias em que preferia estar morto… a vida é difícil mesmo!

Às vezes eu me envergonho, mas eu digo “o que você é o que você tem”, e procuro sair dessa dando o meu melhor. Eu ainda sofro com esses traumas do passado, tenho flashbacks e, quer saber, esta sou eu. Eu acho que a gente aprende a lidar com isso! No passado, eu entrava e saía do hospital, mudava de medicação, ora esse tratamento, ora aquele… agora eu lido mais ou menos com isso, eu sei que eles não irão totalmente embora, são meus.

O que eu acho que acontece é que eu tenho esses traumas, eu queria curá-los, mas curá-los totalmente não é possível. Se eu magicamente pudesse extrair meus traumas e minha história, eu acho que eu perderia toda a minha compaixão. A minha história me permitiu ter mais compaixão pelas pessoas. Quando eu tinha uma ferida, um problema, eu pensava… isto pode ser uma espécie de dom que me trará mais compaixão pelo mundo e pelas outras pessoas… e isso é uma coisa boa! Não que eu deseja isso a ninguém, mas ao mesmo tempo é quem eu sou, o que me sintetiza, isso é o que importa.

Esses anos todos eu tinha medo de falar para as pessoas, de contar para meus professores… para alguns em quem eu confiava eu contei. Quando eu fiz o meu mestrado e o meu doutorado, eu não contei nada a ninguém. Eu vi um colega meu do mestrado, éramos quatro na sala, tendo um surto psicótico, isso me assustou muito. Eu achava que me recuperar era me tornar normal, eu tinha que colocar a minha história psiquiátrica para trás… “isso já deu no que tinha que dar, agora estou sã, agora vou me transformar numa profissional”, pensei.

Quando comecei a conhecer outros profissionais, que não sabiam que eu era uma paciente e não conheciam a minha história, eu me deparei com a realidade. Todos eles estavam em terapia, todos eles se divorciaram, todos estavam perdidos, todos eles tinham problema com a sua sexualidade, uns usavam drogas, outros álcool… aí eu realizei que ter um diploma não faz de você uma pessoa sã.

Para mim o meu diploma de doutorado foi como uma chave que abriu algumas portas importantes. Sem ele eu não seria capaz de publicar artigos em revistas sozinha, fazer pesquisas, atrair investimentos, como do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. Mas eu não uso o meu diploma só para mim, isso seria egoísta. Eu procuro trazer outras pessoas para perto de mim, abrir as portas para elas também.

Eu sempre procurei amigos para dividir com eles e às vezes recorri às associações de pacientes e familiares, isso salvou minha vida. A parte mais difícil foi voltar ao hospital como uma psicóloga clínica e rodar na emergência e ver fazerem com as outras pessoas o que fizeram comigo no passado, como as contenções no leito. Eu não queria fazer parte disso, mas eles esperavam que eu fizesse parte. Eu simplesmente dizia que não estava num dia bom e não participava.

Hoje eu me dedico ao meu público, dou palestras e desenvolvo materiais de apoio para as pessoas que como eu são “sobreviventes psíquicos”. Eu sinto que é isso que o meu Deus quer que eu faça da minha vida e todo dia eu digo sim. Isso me faz ir adiante.

Estratégias de Patricia Deegan para a recuperação:

  • Nada de drogas ou álcool
  • Ache ambientes tolerantes
  • Relacionamentos
  • Espiritualidade e achar sentido no meu sofrimento
  • Senso de propósito e direção: encontrar uma missão em torno da qual vou organizar minha recuperação.
  • Rotina
  • Cada dia de uma vez, cada hora de uma vez, cada minuto de uma vez.
  • Estudar, aprender e trabalhar.
  • Boa vontade para trazer a responsabilidade para mim e aceitar que ninguém pode fazer o trabalho da minha recuperação por mim.
  • Boa vontade para fazer psicoterapia para trabalhar meus traumas.
  • Encontrar outras pessoas que estão se recuperando e aprender a não ter vergonha.
  • Desenvolver habilidades para o autocuidado:
    • Como evitar os pensamentos delirantes
    • Como lidar com as vozes
    • Como lidar com a ansiedade
    • Como descansar, me acalmar e dormir
    • Oração, meditação
    • Exercícios físicos e uma boa dieta

 

Leia outro depoimento de Patricia Deegan clicando aqui.

Assista ao vídeo com o depoimento de Patricia Deegan (áudio em inglês)

25 comments

Guilherme Augusto Vieira - 16 de fevereiro de 2012

Maravilhoso depoimento!!!

Lucas - 17 de fevereiro de 2012

Muito boa recuperação ela teve, muita gente não consegue nem mesmo se formar, e com esquizofrenia ela ainda se distinguiu, eu fico feliz de ler noticias assim, eu tenho esquizofrenia, e sei como é dificil lidar as vezes com pequenos detalhes do dia dia, tomara que muitos leiam a noticias e corram atrás de um emprego, uma faculdade, algo que te deixe independente, e não deixem de seguir a vida.

Antonio Barone Bicalho - 17 de fevereiro de 2012

Obrigado Leonardo Palmeiras por estas informações preciosa que contribui e muito com este aprendisado constante ,fiquei admirado com o que li, Patrícia está colaborando muito com as pessoas que vive nesta forma de pensar e trazendo conforto para os famíliares.Barone

Treze - 8 de março de 2012

Maravilhoso, mas eu ainda prefiro meu próprio segredo de saude e felicidade: não trabalhar!

Sonia Maria Mattoso de Moura - 30 de março de 2012

Valeu muito bom ! obrigada Leonardo Palmeiras , seu site é fantástico precioso. ajuda demais sobre esta doença que não tem jeito Temos que aceita-la . É possível o Sr. conseguir ser legendado ? não sei inglês tive que usar um tradutor. obrigada.

daniel - 17 de abril de 2012

fico feliz de ver pessoas assim que mesmo com a doença consegue sobressair enfrentar os obstaculos qual sera o segredo de quem tem esta doença conseguir tewr uma vida social ativa nao sao como pessoas que eu vejo dentro de um caps que nao tem muita noçao doque estao fazendo

Maria Auxiliadora Furtado - 15 de junho de 2012

Muito obrigada; primeiramente ao Dr Leonardo Palmeira pelo site, blog e pelos e-mail que nos envia ajudando-nos a compreender melhor o que acontece com nosso filho. Nas pequenas cidades do interior o estigma e o preconceito são imensos. Por isso, o maior apoio que encontramos é o virtual.
Não desista nunca de nós doutor! O contato com quem passa pela mesma situação é um importante apoio a todos nós.

Também expresso meu agradecimento ao Jô Soares pelo espaço concedido à doença num programa de altíssimo nível como o dele. As colocações, sempre inteligentes e pertinentes, feitas por ele, com certeza ajudam a diminuir o preconceito. Este é o que mais dificulta e machuca a vida dos familiares e do próprio esquizofrênico.

Silvia - 30 de junho de 2012

Maravilhosa a matéria!
Tenho um sobrinho que esta internado em uma clinica de recuperação,descobrimos que ele usava drogas e veio o diagnostico…esquizofrenia
Só que eles nao medicam,isso é correto?

edilamar ferreira - 2 de julho de 2012

eu sou mae de um rapaz de vinte anos que nao aceita a doença nem tratamento ele nao tem mas vida e nao sei como lidar com esse sofrimento só tem 2 anos que essa doença apareçeu… e desestrutorou o meu filho e a minpreciso de ajuda

Leonardo Palmeira - 4 de julho de 2012

Silvia, a medicação é parte fundamental do tratamento da esquizofrenia. Um abraço!

Márcia Paula petrucelli - 16 de julho de 2012

Bom dia!
Quero agradece-lo pelo espaço; e dizer o quanto e importante para uma mãe todo tipo de acolhimento.
Minha busca por tratamento começou bem cedo e só agora foi fechado o diagnostico.
Sou mãe de um portador. Aos 5 anos teve a primeira crise de fúria. Após vários supostos diagnósticos esta sendo tratado como portador de esquizofrenia herbefrenica.
A questão de falta de suporte e irresponsabilidade por parte de alguns profissionais; no nosso caso foi muito cruel. Quando procurei o Proesq por iniciativa propria( meu filho estava sendo tratado de epilepsia; com trileptal).
Preciso pedir as maes e cuidadores que não os julguem . A busca no nosso caso foi longa e a estrada que teremos que seguir ainda e incerta. Mais ele com 3 meses de tratamento medicamentoso e TO já esta participando de pequenas tarefas em casa e até sorri de vez em quando.
Continua no quarto; não corta cabelo;barba; e nem unhas. Porém consigo senti-lo bem mais leve.
Vai completar 20 anos neste mês; e pela primeira vez pediu para ir a um show. Disse que iria sozinho; mais quando percebi que seria complicado para ele ir e voltar e se ” inturmar” perguntei se teria algum problema ir também. Combinamos de ficar cada um em seu canto. Os amigos que ele disse que encontraria para beber um vinho) não apareceram; ele ficou em uma mesa afastado de todos (inclusive da mãe).
Resumindo: percebam e agradeçam por todos os sinais de resgate e ajuda. No momento esta e a minha mensagem. Um forte abraço a todos.
Assino como cuidadora

Rachel - 28 de julho de 2012

As estratégias sugeridas por Patrícia são saudáveis a todos nós . A humanidade ainda não consegue adotar estes pontos .Quantas coisas nos são oportunizadas por caminhos que nem sempre entendemos ? Sinto felicidade por ela , pela sua superação ….

Renata - 9 de agosto de 2012

Muito motivador seu depoimento ! Parabéns por sua recuperação, continue com sua vida, continua na batalha, você é uma vencedora !!!

iakemi - 22 de agosto de 2012

Olá!
Estou linkando esta página ao meu blog pessoal em que o texto da Deegan, o Conspirary Of Hope, estará traduzido.

Leonardo Palmeira - 24 de agosto de 2012

Iakemi, obrigado por compartilhar conosco um texto que transmite a esperança e a essência do pensamento da Deegan. Para acessar copie e cole o endereço em seu navegador: http://ialeatoria.wordpress.com/2012/08/22/recuperacao-reabilitacao-e-a-conspiracao-da-esperanca/
Um abraço!

Maribel - 6 de abril de 2013

Ola!estou me tratando com um psiquiatra .ainda nao sei direito que doença que eu tenho.tenho visões ,alucinações .de uns meses pra ca ,meu chão se abriu .estou 9 meses na pericia ,não tenho animo para fazer mais nada .não durmo direito fico conversando com a tv .so quero ficar em casa ,com as portas e janelas trancadas.me afastei de todos não sinto mais vontade de conversar .o psiquiatra me receitou haloperidol clorpromazina e sertralina .gostaria de algum conselho o que devo fazer,estou muito confusa .obrigado maribel

Angel - 2 de novembro de 2013

Primeiramente eu agradeço pelo depoimento maravilhoso e emocionante,eu tive situa coes parecidas,ninguém entendia ,mais deus sempre esteve comigo,sla eu tenho novas expectativas e medos,mais eu vou confiar em algo porque como li em seu depoimento todos nos passamos por problemas ninguém e perfeito.
Muito obrigada você e maravilhosa,sem mentiras obrigada mesmo
Eu queria escrever mais ,mais obrigada e tudo que eu quero dizer
Você e uma vencedora

Angel - 2 de novembro de 2013

Eu tambem passei por problemas psiquiatricos mais estou superando vlw pelo depoimento

Bianca Barbosa - 22 de novembro de 2013

Parabéns á todos da produção!
Muito bom…

Cyntia - 26 de julho de 2015

Eu ,como familiar de paciente, as vezes me sinto perdida.Me sinto sozinha sempre remando contra a maré.Não choro, não me lamento, não sinto dor, não fico doente.Nunca reclamo com ninguém, Tudo está sempre lindo e perfeito.Pra ele tudo está correndo bem.Para os meus filhos também, porque se eu demonstrar fragilidade, o que é que vai ser da vida deles. Ultimamente meus companheiros tem sido o computador e os cd’s.Levanto todos os dias agradecendo a Deus por estar viva e cuidando dele. Ele é jovem, tem três filhos e precisa continuar a ter uma vida plena, e sei que terá.Ele fala comigo, ele fica a vontade comigo, e isso já me deixa bastante feliz!

GUILHERME C C COSTA - 2 de fevereiro de 2016

Eu tenho esquizofrenia. Pra mim é difícil ouvir as vozes e parece que seus pensamentos a qualquer momento vão ser repetidos por outras pessoas já que essas vozes repetem o pensamento meu. Não sei se é assim com todo mundo. Além do que elas, as vozes, tem voz própria e dizem o que querem. Aderi ao tratamento e a correta medicação. Estou melhorando. Curso faculdade, procuro um trabalho, vou tentar um emprego, tenho procurado oportunidades. Agradeço a ela, os comentários e o site por darem voz a pessoas como nós, que sofrem dessa terrível doença. Uma vida plena, Deus, e cuidados, como não aderir a vícios, ou controlar os vícios e conseguir um equilíbrio pra tocar pra frente projetos e vontades, viajar, ver shows, ouvir músicas, filmes, teatro, livros, tudo que se quer, tudo que é possível. Eu percebi que eu até posso fazer sexo e sem culpa e que essas vozes não tem o direito de impedir que eu tenha um amor nessa vida, e muito menos nas outras vidas que eu espero ter um dia porque nosso tempo na Terra é muito valioso e aprendizado, trabalho, vida enfim é algo muito bom.

Editor do Portal - 19 de fevereiro de 2016

Guilherme, obrigado pelo seu comentário e por transmitir essa esperança e otimismo para tantas outras pessoas que precisam das palavras como as suas!

Monique - 4 de setembro de 2018

E aonde estaria a linha divisoria entre esquizofrenia e paranormalidade/videncia/medium nao controlado.

cassia - 19 de novembro de 2018

ESTOU MUITISSIMO TRISTE POIS ENVIEI MEU TESTEMUNHO AQUI MAS NAO FOI PUBLICADA SENTI-ME DISCRIMINADA QUERIA SABER O MOTIVO.??????????????????????????????????? QUE DISCRIMINAÇÃO ISTO É TERRIVEL…..

Editor do Portal - 25 de novembro de 2018

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