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Artigo “O desafio da família” – Jornal do Brasil

Editor do Portal 12 de julho de 2009 Blog, Multimídia No comments
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RIO – A novela ‘Caminho das Índias’ traz para debate na sociedade o tema da esquizofrenia, doença mental que acomete cerca de 2 milhões de brasileiros e envolve outros 8 milhões direta ou indiretamente, entre familiares, amigos e cuidadores. Apesar dos números expressivos, a esquizofrenia é desconhecida pela sociedade e estigmatizada como loucura ou como o que de pior poderia acontecer à saúde de uma pessoa. A novela vem abordando o assunto de forma clara e educativa, expondo os preconceitos que doentes e familiares sofrem com o diagnóstico. Um aspecto central é o papel da família, da identificação do problema até o tratamento e a recuperação da pessoa assunto que merece maior reflexão, pois estudos têm apontado a família como agente fundamental de todo o processo de cuidado na esquizofrenia.

O período inicial da doença é de difícil compreensão e percepção. Os sintomas mais precoces são inespecíficos, confundidos com depressão, ansiedade, crise existencial ou natural da adolescência. O isolamento, a apatia, a interrupção de atividades como trabalho e estudo e os problemas de relacionamento indicam a necessidade de apoio, mas a família se sente perdida em relação a quem recorrer. Acrescenta-se a isso a dificuldade de enxergar o quadro como um problema de saúde, quiçá psiquiátrico, diante da angústia de imaginar alguém querido acometido por uma doença psiquiátrica desconhecida e, por isso mesmo, temida como algo que pode selar negativamente o futuro da pessoa. A negação da doença cega e protela a procura pelo tratamento adequado. Todavia, o quanto antes o diagnóstico e o tratamento, maiores e mais rápidas as chances de recuperação. Como a esquizofrenia atinge a capacidade de autocrítica e determinação da pessoa, este é um desafio crucial para a família, de quem se espera uma atitude.

Com o primeiro surto, os delírios, as alucinações e as alterações de comportamento escancaram aquilo que já não se pode mais negar. É comum, neste momento, que os pais assumam culpas ou culpem um ao outro equivocadamente, querendo assumir ou dirimir responsabilidades que eles não têm. A esquizofrenia é uma doença hereditária que surge de uma relação complexa entre fatores biológicos e ambientais, sobre os quais a família não pode ter controle. Por isso, o sentimento de culpa não deve ser nutrido sob nenhuma hipótese. Traumas de infância, problemas da criação ou descuidos do passado provavelmente não foram determinantes para o adoecimento. A pessoa já trazia consigo uma predisposição.

É fundamental que a família conheça a fundo a doença para compreender as atitudes de seu familiar. Estudos demonstram que pacientes cujas famílias são bem informadas e capazes de solucionar os conflitos com menor grau de estresse têm até 70% menos recaídas do que aqueles que não contam com um ambiente familiar acolhedor e compreensivo. Alguns padrões emocionais são mais comuns nas famílias, como atitude mais crítica, superprotetora ou permissiva. Identificar e melhorar essas atitudes são cruciais. Nesses anos pude perceber o quanto o conhecimento e a reflexão da família são capazes de imprimir mudanças em seus pacientes que antes pareciam impossíveis.

A esquizofrenia é uma doença complexa e, como tal, exige um enfrentamento pluridimensional. A família deve se aliar à equipe terapêutica, acreditando que com o envolvimento de todos a recuperação seja possível. Apesar de não se conhecer uma cura, a pessoa que sofre de esquizofrenia pode ter uma vida normal e produtiva com o tratamento e este deve ser o objetivo comum de pacientes, terapeutas e familiares.

→ Link original da matéria, publicada no Jornal do Brasil.

Leonardo Palmeira é psiquiatra e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia.

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